10.12.08

post mortem

putz! morri. e agora? eu nem listei as coisas que eu queria que fizessem. nem avisei ninguém que não queria que ninguém ficasse triste porque eu finalmente realizei meu último e solene grande sonho. nem fiz a lista dos meus bens e pra quem eu quero que eles fiquem. eu sabia que deveria ter sido mais prudente com relação à isso, estava óbvio que alguém com o tipo de vida que eu levava não passaria dos vinte e poucos.

queria que meu enterro fosse tradicional. com familiares e amigos jogando punhadinhos de terra sobre um caixão. queria ter velório e pessoas falando sobre mim. falando sobre o quanto eu era legal, o quanto eu era uma boa pessoa, o quanto eu era especial e o quanto eu faço falta. mas não, preferi viver intensamente sem nem me preocupar com a última festa. como fui imbecil!

tudo bem, tudo bem, eu assumo. grande parte da tradicionalidade do meu enterro se basearia na minha intrínseca necessidade de atrapalhar a vida dos outros. fazer todos saírem da rotina. fazer com que ficassem numa sala se policiando para não rir e contrabandeando bebidas e fumando escondido. apesar que no meu enterro seria tudo liberado. bebida, alguns tipos de drogas e cigarro, mas muito cigarro mesmo. queria uma aura esfumaçada para dar uma ambientação mais legal. queria também pessoas bêbadas. pessoas bêbadas são muito legais. ainda mais em um velório. um velório sem ninguém bêbado não é um velório memorável. e o que eu queria era ficar para a história.

queria também que todas as pessoas que me conheceram fossem ao velório. seria engraçadíssimo como aquele monte de gente se portaria junto. pessoas do trabalho, meus amigos de paetês, os junkies, os bêbados, os idiotas, os certinhos... eles não saberiam conviver no mesmo espaço por muito tempo. acho que ficariam grupos de pessoas espalhados pelo salão com meu caixão no meio. porque, como é meu enterro, eu deveria ser o centro das atenções. pelo menos uma última vez.

não haveria padre, sacerdote, pai de santo, monge ou afins. não fui batizada nem segui qualquer religião por muito tempo. quem falaria no meu enterro seriam as pessoas mais próximas a mim. se eu tivesse sido mais prudente, teria feito a lista das pessoas que eu queria que falassem. porque eu nem sou do tipo de pessoa que quando morre vira santo. não, eu não quero virar santa. queria que todos falassem dos meus podres. de como eu conseguia ser escrota e acabar com tudo que foi dificilmente construído em questão de segundos. mas eu ainda acho que os pontos positivos superariam os podres. então seria uma última massagem ao ego antes de ir para a eternidade, ou falta de.

as únicas pessoa que eu realmente queria que falassem no meu enterro seriam minha mãe, dois amigos e a outra parte do meu ex relacionamento. por quê? oras, mas é obvio, seriam discursos que se anulariam. eu não seria nem uma pessoa muito má, nem muito boa. minha mãe e a outra parte do meu ex relacionamento falariam bem mal de mim. meus dois amigos falariam muito bem. deixe-me elucidar um ponto: minha mãe e a outra parte do meu ex relacionamento falariam mal de mim porque são as duas pessoas que mais me conhecem no mundo, e essas duas pessoas sabem como a podridão reinava em meu ser. as outras só sabem o que eu quis demonstrar ao longo da minha vã existência.

e haveria música também. nada de trilha sonora. uma única música que seria repetida incessantemente até o último ser vivo sair do salão. a música em questão seria coughing colors e sua letra e tradução, previamente feita por mim, seria distribuída entre os presentes. todos deveriam ser encorajados a cantar e alguém seria destacado a interpretar a canção em relação a mim. porque eu também deveria mostrar meu lado brega em meu velório.

no fim do velório umas seis dykes carregariam meu caixão até o carro funerário. e iriam todos em carreata até o cemitério. carreata que deveria passar pela avenida paulista e pela esquina da rua frei caneca com a rua matias aires. só depois se dirigiria ao cemitério. e eu não gostaria de um cemitério verde, arborizado e bonito. não, eu queria um cemitério cinza e com aspecto de assombrado. queria também que colocassem no meu caixão, como faziam com os faraós no antigo egito, maços de cigarro, umas três garrafas de vodka boa e meu isqueiro ronson. depois disso, e de alguém desmaiar, poderiam encerrar o enterro e descer o caixão.

mas como eu não fui prudente e sempre vivi aos extremos, não deixei nada disso documentado e foi tudo do jeito que acharam que deveria ser, não do jeito que eu gostaria que fosse. sou uma morta frustrada por conta disso.

5 comentários:

Layana Lossë disse...

você pode voltar e puxar o dedão do pé de todo mundo durante o sono, assombrar a vida dos seus amigos, até eles fazerem alguma coisa muito legal que te deixe feliz e satisfeita, apesar de terem feito tudo diferente do que vc queria :)

Edilson Marques disse...

Bem vinda. Teremos:

Negação, revolta, barganha, depressão e aceitação.

E valeu pelo "incentivo" dos vídeos... (risos)

Juliana disse...

'queria uma aura esfumaçada para dar uma ambientação mais legal.'
Jô, não seria mais fácil gelo seco? Tiop, bá, bota uns copinhos de água com o gelo dentro, em volta da sala, atrás das flores, meo, vai ficar mara!

Emil disse...

Eu levo a vódega! E depois me diz o que mais o povo curte, que eu ligo pros contatos.

Sabrineeee GanchooO!! disse...

Aê, jpa fui indicada pra falar no velorio/enterro... mais alguém??
gostei da ideia da Jú!