24.5.10

a outra entrevista - parte II

para ler a primeira parte clique aqui

- nossa! eu nunca pensei que deus fosse uma criança!

ele tirou os olhos do papel, olhou para ela e disse:

- eu posso ter a forma que eu achar mais divertida. posso ser uma mulher, se eu quiser. um homem, um cachorro, um pássaro, o sol, a lua, o oceano, tudo que eu puder imaginar. espero que você não queira que eu mostre tudo isso, para juntar toda água do oceano de volta é meio chato.

ela estava estupefata com a visão de deus sendo uma criança que rabiscava almofadas e rolava pelo chão. então o todo poderoso, sabendo disso, se transfigurou em algo que ela pudesse reconhecer mais como o criador do universo e da vida em si. no entanto, as almofadas continuaram por lá e a iluminação continuou a mesma.

depois de presenciar a transformação da criança na forma que ela achava mais apropriada para deus, ela perguntou:

- mas o senhor não está ocupado com alguma coisa boba, do tipo governar toda vida do universo e tal? como tem tempo para me atender aqui sem nem me deixar esperando um segundo sequer?

ele, com toda calma respondeu:

- tenho o mau hábito de estar em muitos lugares ao mesmo tempo, e também faço muitas coisas por vez. as pessoas dizem que isso não é exatamente bom, mas é muito funcional, sabe? é muita coisa para fazer, se eu não pudesse fazer esse tipo de coisa, eu não teria tempo algum... e, na verdade, eu faço isso melhor quando estou dormindo. aliás, eu não governo toda a vida do universo, eu a supervisiono. mas, já que começamos falar desses assuntos burocráticos, você não acha que deveríamos começar a entrevista? burocracia por burocracia...

ela pegou seu gravador de dentro da bolsa, apertou alguns botões e disse:

- tudo bem, então. vamos começar. segundo a entrevista com seu encarregado do equilíbrio, o senhor tem grandes planos para nós...

- mas é claro! sempre tenho grandes planos para vocês. vocês foram uma das minhas experiências que mais me surpreenderam. e isso porque eu não esperava que vocês iriam evoluir da maneira que evoluíram. eu esperava mais, muito mais.

- esperava mais? em que sentido? por que?

- esperava mais porque vocês foram meu primeiro projeto e, acho, todos se enchem de expectativas com o primeiro projeto. mas aí, né, deu no que deu. pelo menos os seguintes funcionaram melhor.

- os seguintes?

- sim, tenho muitos outros projetos. todos mais bem sucedidos que vocês, não leve a mal, eu assumo o erro. provavelmente foi algo no meio do processo, acho que pulei algum passo ou algo assim. tento de tudo para tentar recuperar, mas ainda não consegui.

- tentar recuperar o que, exatamente?

- vocês, oras. mas não adianta o que eu faça, vocês sempre estragam tudo. já tentei fazê-los serem politeístas, não funcionou. já tentei inúmeros messias, não funcionou. já tentei fazê-los super crentes e tementes à força superior - que nesse caso, seria eu -, não funcionou. já tentei fazê-los acharem que são o máximo e que nada é melhor que vocês, não funcionou. coloco cataclismos, desastres, coisas bem estranhas mesmo e nada funciona. todos me falam para abrir mão de vocês, mas eu não consigo. até criei um diabo para fazer com que vocês tenham medo e comecem a fazer as coisas certas, mas nem isso...

- falam para você abrir mão? quem?

- os outros que vivem nessa dimensão. achava que eu morava sozinho? não é bem assim. vocês são o meu primeiro projeto em um centro de treinamento de criação. aqui tem muitos outros que fazem muitas coisas parecidas, melhores ou piores. tem um mundo todo por aqui, sabe?

- então isso quer dizer que somos pequenos, ínfimos, puntiformes, que não fazemos diferença alguma para qualquer coisa maior?

- não é bem assim, minha querida. vocês podem não fazer diferença para o meu colega que é estúpido, mas para mim fazem. para quem me conhece também fazem. e sobre o tamanho, sim, vocês são pequenos, da mesma forma que eu sou, da mesma forma que... ah, deu para entender a ideia, não? é uma cadeia sem fim de menor para maior, até hoje nunca ninguém conseguiu chegar no começo dessa cadeia, alguns procuram, outros acham que isso é o que faz tudo ser divertido, outros acham que tudo isso é idiota e nem se preocupam, alguns chamam isso de pi...

- tudo bem, eu entendo. você disse estar desapontado conosco. algo em particular?

- muitas coisas em particular. primeiro de tudo, vocês se matam. a tendência que vocês tem para matarem-se me fez perder muitos pontos e algum certo prestígio até eu conseguir fazer melhor em outra oportunidade. mas vocês se matam por tudo, por dinheiro, por inveja, por falta do que fazer e até por mim! e não importa o que eu faça, não importa que tipo de estímulo eu possa dar, vocês vão continuar se matando.

- estímulo? como assim?

- estímulo, assim mesmo. ou vocês acham que, sei lá, jesus, maomé, gandhi, einstein, mozart, arquimedes, sócrates, nietzshce, foram coisas do acaso? não, estes foram criados exatamente para fazer mais ou menos o que fizeram.

- você quer dizer que eles foram induzidos a serem excepcionais? e o tal do livre arbítrio?

- o tal do livre arbítrio não foi tocado. eles poderiam não fazer nada, mas fizeram. eles foram programados para isso, mas existia a chance de não funcionar. e, não se preocupe, esse tipo de coisa só acontece com alguns poucos de vocês, temos regras para isso, sabe? senão seria muito fácil criar o mundo perfeito. a grande maioria de vocês é gerada de forma aleatória de acordo com o que foi criado na raíz. por isso que eu digo que o erro é meu, para sair tanta coisa errada assim, só pode ser problema de raíz.

- e essas atitudes que você tomou, não surtiram efeito?

- ah, funcionaram na medida do possível. esse tipo de medida consegue mudar uma ou outra coisa, não tudo. eles são limitados a um número bem reduzido, todos eles fizeram o possível e conseguiram bons resultados. se uma pequena porcentagem de vocês se salva, é por causa deles. só tenho que pensar sobre o que eu vou fazer com esses que se salvam, porque deve ser um tanto entediante e revoltante viver em um ambiente assim...

- e sobre as orações e os pedidos que as pessoas fazem para você? você as ouve, faz alguma coisa sobre elas? como funciona?

- ouço todas. algumas são bem engraçadas, mas a maioria é extremamente entediante. me impressiona como vocês só pedem as sempre mesmas coisas e não fazem coisa alguma para consegui-las. nada cai do céu para ninguém; a não ser chuva, ou quando alguém daqui faz chover coisas estranhas, tipo, peixes para rirem de vocês. ah, e não faço nada sobre as orações, não posso, as regras, sabe? tenho que recuperá-los pelo meio certo, senão não farei progresso algum.

- interessante. e como você lida com as pessoas que o odeiam?

- ah, eu as ignoro. vocês tem mania de culpar qualquer um pelo próprio sofrimento, menos quem tem que ser culpado. cada um é o causador do próprio sofrimento, nunca terceiros. mas é mais fácil para vocês, eu suponho, culpar outros. do porquê é mais fácil eu só desconfio, então não vou falar minhas suposições porque eu posso estar errado, então mais gente vai resolver que me culpar pela torradeira que queima é algo legal de se fazer. vocês realmente se dariam muito melhor se parassem de culpar uns aos outros e começassem a assumir os próprios erros e lidar com as consequências. parar com essa atitude de: "oh, a minha vida não deu certo, é culpa do meu vizinho invejoso." ou "deus me odeia, ele só acaba com a minha vida, aposto que é um prazer pessoal.", nem vizinho invejoso nem eu fizemos qualquer coisa sobre a vida de vocês, foram vocês mesmos. só assumam e lidem com isso. esse comportamento não foi culpa minha, eu vi pelo passo a passo da criação. isso é característica de vocês mesmo.

- e por que você não termina com tudo? já que tudo está tão mal assim?

- porque me apeguei a vocês, oras. gosto de vocês, vocês me dão o desafio de encarar um erro absurdo que cometi todo tempo, vocês me dão chance de melhorar o que eu faço, de tentar reparar meus erros, de ir contra todos para fazer o que eu acho certo, o tipo de coisa que eu gostaria que vocês fizessem. se bem que vocês tem um problema de matriz e talvez tentem fazer isso, mas como o princípio está errado, a aplicação do resto fica conturbada... o que não impede de vocês tentarem.

- já que se apegou a nós, quais são as medidas que você vai resolver tomar daqui para frente?

- estou pensando ainda. provavelmente algo com diminuir o número de vocês, escolher os melhores e deixá-los fazendo o resto do trabalho, para ver no que vai dar. é um bom experimento, se funcionar posso conseguir a entrada para uma boa instituição. só por ter conseguido superar o tipo de problema que vocês apresentam. mas, para conseguir fazer isso, eu preciso de autorização, documentação em três vias, projetos e mais algumas coisas.

- e o que aconteceria com aqueles que não atingirem os patamares necessários?

- eles provavelmente serão mortos.

- e o que vai acontecer com eles, depois de mortos?

- exatamente o que eles esperam que aconteça. quem acha que não existe nada, vai existir coisa alguma, quem acha que vai para uma festa no pós vida, vai para uma festa. quem acha que vai para um mundo de coelhinhos brancos, é exatamente o que vai acontecer.

- é isso que sempre acontece?

- só nas ocasiões especiais. nas outras não é bem isso que acontece, mas não vou entrar em detalhes.

- por que?

- porque a resposta poderia afetar o desenvolvimento do projeto todo. e isso eu me recuso a fazer. já fiz uma vez e não gostei do resultado.

- afetaria como?

- vocês ficariam mais cheios de si, ou menos cheios de si. felizes ou decepcionados, no fim só ia gerar caos. vocês ainda não podem ter certeza das coisas, como os outros podem. é melhor deixar quem acredita acreditando, quem não crê não crendo e quem não sabe de nada não sabendo.

-você disse que os outros podem ficar sabendo das coisas e nós não. por que isso?

- porque eles estão mais evoluídos que vocês. isso não os afeta como afetaria a vocês, por isso eles podem saber de algumas coisas e vocês não. uma coisa que vocês sempre erram é que todos vocês sempre exigem a verdade mas nem todos sabem lidar com ela. a verdade gera desconforto, na maioria das vezes. desconforto gera tristeza. tristeza faz com que vocês façam besteiras. aí, vocês fazem mais besteiras e culpam uns aos outros. e assim sucessivamente.

- entendo. e como funciona o politeísmo, você já o mencionou na nossa conversa hoje. tem alguém que ajude a regular tudo?

- a dimensão de vocês não, nem as outras que eu criei. mas, como eu já disse, muitos por aqui criam dimensões. e cada um cuida das suas, porque se fôssemos dividir nós realmente brigaríamos muito. o politeísmo existe na dimensão de vocês, mas todos os diferentes deuses são diversas formas que me apresento, só para que vocês se sintam mais à vontade. então, quem quer venerar o sol, pode e deve. quem quer venerar o oceano, pode e deve. alá, deus, oxalá, adonai, krishna, zeus, thor, todos são eu.

- se todos são você, por que todas essas discrepâncias nas religiões?

- religiões foram criadas por vocês, porque vocês precisam de regras. então, a maioria das religiões existentes foi criada a partir de alguém que pensou muito sobre o assunto e decidiu que as leis de conduta e comportamento que deveriam ser seguidas são frutos, única e exclusivamente, da cabeça dele. e como eu não posso me manifestar, ficou assim.

- e sobre o diabo? bem, ele existe, os motivos da existência dele são mesmo aqueles que ele disse?

- sim. ele existe porque eu o criei. porque vocês só aprendem sofrendo, então precisava de algo que colocasse isso para vocês. não faço eu mesmo porque não posso interferir além de um certo ponto. na entrevista com seu pai, ele disse que era porque eu não gostaria de sujar meu nome. besteira dele! acho que ele está tão acostumado com o trabalho que desenvolve que se esqueceu de como as coisas funcionam mesmo.

- você disse várias vezes que só pode se envolver até tal ponto, sei que não é da minha conta e parece ser totalmente além do meu conhecimento e entendimento, mas por que você esta dando esta entrevista? isso não iria além do tanto que você pode desenvolver?

- sim, iria, e vai. consegui permissão usando a entrevista de seu pai e os dados que foram colhidos a partir dela. bastante gente levou seu pai à sério, mas muito mais gente achou que ele fosse louco ou um bom escritor de ficção. então, com esse argumento eu consegui demonstrar que a entrevista seria um sugestivo como qualquer outro que é facilmente colocado para vocês.

- e por que eu fui escolhida para essa entrevista? por que não qualquer outra pessoa?

- porque assim ficaria mais subjetivo, geraria mais dúvida e seria só mais uma sugestão mesmo. porque as pessoas vão se questionar muito mais sobre a sua entrevista do que elas questionaram seu pai. porque elas tem a visão de um deus intocável, todo poderoso, onipresente, onisciente, oni-qualquer-coisa que você quiser adicionar. e para deus conceder uma entrevista, a pessoa deveria andar extremamente na linha de todas as religiões ao mesmo tempo - o que é impossível. e, além de tudo isso, seu pai entrevistou o meu rival, pelo menos vocês gostam de achar que o diabo é isso, então, para muitos, a filha dele entrevistando deus vai soar como alguém que quer atingir tantas ou mais coisas que o pai. devo dizer foi decidido pelos outros que fosse você quem viesse me entrevistar, os que fazem as regras daqui.

- isso é realmente muito esperto. e que lugar é esse? é o céu? estou na sua dimensão?

- não, essa é só uma realidade paralela no seu próprio mundo. a viagem e as coisas para distraí-la foram colocadas mais como meios para você acreditar que está em em outro lugar, fazendo o que você foi chamada para fazer. e a sua crença nisso é crucial para que você leve tudo isso a sério.

- achei muito legal! queria algumas daquelas bugingangas para mim. e anjos, eles existem?

- todas essas coisas religiosas que você acreditar que existam, elas existem. a chave para tudo é acreditar. mas é lógico que se você acreditar que vai ganhar na loteria, só por acreditar e por achar que todo o dinheiro lhe faria muito bem, não vai funcionar. o problema é que muitos de vocês direcionam o acreditar para coisas erradas, então vocês não sabem do poder que vocês tem só por poderem acreditar em coisas.

- vou tentar disseminar esse pensamento.

- é exatamente por isso que você está aqui. para disseminar essas ideias. e acho que você já perguntou tudo que era possível ser discutido aqui. então, eu vou, infelizmente lhe mandar de volta para sua realidade. com pesar, porque sua companhia realmente é muito agradável.

- pena, o senhor é muito bom de conversa. mas, já que é necessário...

ele, então, olhou para ela, deu um sorriso, voltou a ser criança, deu uma rolada pelas almofadas e estalou os dedos. quando ela deu por si, já estava de volta no meio de transporte, com todas as coisas que a entreteram na viagem de ida. mas, desta vez, havia uma pequena placa com os dizeres: "leve o que quiser." ela sorriu e aceitou de bom grado os souvenirs.

chegando de volta, ela foi mostrar um dos presentes para uma amiga e ele desapareceu, então ela entendeu que não deveria mostrá-los para ninguém. publicou sua entrevista em uma revista de renome, escreveu livros, ministrou palestras, ganhou mais alguns rios de dinheiro para sua família e não viveu para ver o que deus estava tentando planejar para o mundo. ou então viveu exatamente o suficiente para ver o que ele estava planejando.

Um comentário:

Ju disse...

Jô! Isso tá mto foda! Mas continua me dando medo, ver vc escrever sobre dels! hahaa


'cada um é o causador do próprio sofrimento, nunca terceiros. mas é mais fácil para vocês, eu suponho, culpar outros.' NÉ? Tem gente que precisa mesmo, perceber isso.. btw..

Sôdadis, ô historiadora do lgo são chiquinho.

[gente lesada =P]