5.5.10

ela

você já conheceu uma mulher forte? eu já. não estou falando de força física, é aquele tipo de mulher que causa espanto de alguma forma, chegando até a amedrontar. esse tipo de mulher aparenta que pode fazer qualquer coisa, a hora que quiser, com quem bem entender. isso amedronta, porque ela pode decidir fazer o que quiser com você.

eu a conheci muito tempo atrás, quando ela ainda não sabia todo o potencial que ela viria a ter. tenho a impressão que foi só por isso que pude me tornar próximo a ela. antes ela não selecionava tão bem as pessoas com quem se relacionava como ela faz agora. hoje em dia ela só deixa pessoas extraordinárias terem o tipo de aproximação que eu tenho com ela. e eu não tenho nada de extraordinário, sou bem do medíocre, se me cabe dizer. mas não é sobre mim, é sobre ela.

a primeira vez que a vi estava em uma festa. tinha acabado de chegar e estava num canto tentando achar onde estavam as bebidas. notei-a facilmente, ela destoa da multidão. todas as mulheres assim destoam, chamam atenção, e com ela não haveria de ser diferente. ela tinha cabelos compridos pretos, até a metade das costas, pele branca como se nunca houvesse visto a luz do sol, tinha o corpo perfeito: nada sobrando, nada faltando. fiquei alguns segundos reparando nela, ela era muito exótica para o tipo de pessoa que eu conhecia. nesse meio tempo um conhecido chegou. nos cumprimentamos e eu aproveitei para perguntar onde as bebidas estavam. ele me apontou ao local e eu fui pegar algo pra mim. enquanto estava curvado dentro do freezer tentando achar algo que eu gostasse de beber, senti uma mão em meu ombro me chamando. quando levantei e me virei para ver quem era tomei um susto. era ela, sorridente, com aquele olhar que só ela sabe fazer. ela perguntou educadamente o que tinha para beber e eu, calmamente, listei as coisas que tinha visto no freezer. ela pediu que eu pegasse uísque e quando eu perguntei se colocaria guaraná ou qualquer coisa para diluir ela só disse: "duas pedras de gelo.". não consegui esconder a minha cara de susto, até então não tinha conhecido mulher alguma que gostava de bebidas fortes. depois que eu preparei o drink para ela, ela me perguntou sobre a pessoa que estava dando a festa. eu disse que ainda não a tinha visto, mas que provavelmente estaria esperando a hora certa para chegar e chamar a atenção de todo mundo. ela concordou comigo, e disse que iria procurar pela pessoa. logo depois, virou as costas e saiu me deixando um tanto transtornado.

nosso segundo encontro aconteceu umas duas ou três semanas depois da festa. eu estava na fila do caixa do supermercado quando ela chegou com umas duas caixas de cerveja e disse que me conhecia da festa. me assustei, até então eu não imaginava que esse tipo de gente exótica saía de dia, sei lá, eles eram como morcegos para mim ou algo parecido. nós conversamos por uns cinco minutos e chegou a minha vez de pagar os produtos, nos despedimos e eu fui embora. até hoje acho que ela só veio falar comigo para furar a fila, apesar de ela nunca ter admitido isso.

o outro encontro só aconteceu uns dois meses depois, mais ou menos. um outro amigo em comum estava fazendo aniversário e achou que seria legal juntar as pessoas mais próximas em um bar para conversar e beber. fiz questão de estar atrasado, mais ou menos duas horas, todos eles demoravam muito para chegar e eu sempre detestei ficar esperando. quando cheguei quase todos já estavam lá. alguns amigos mais chegados me abraçaram e me apresentaram formalmente aos dois ou três que estavam na mesa, o que ainda não tinha acontecido. conhecia dois de vista e o terceiro era uma boa peça de cenário, já que ele não fez diferença alguma. ela era uma dessas três pessoas, estava cheia de anéis. acho que foi um pouco antes daquele dia que ela começou a usar anéis, não me lembro deles das outras vezes que a encontrei. abriram lugar para que eu me sentasse, e, por sorte ou ocasionalidade, era exatamente ao lado dela. o que as pessoas nunca lembram em encontros de bar é que você tem uma gama inferior de gente para conversar, já que, se houver mais de seis ou sete pessoas, você não irá levantar para falar com alguém que está na outra ponta da mesa. logo que me sentei, ela abriu aquele sorriso e disse algo mais ou menos assim: "então é você que é o famoso, certo? por que não chegou mais cedo? queria ter mais tempo para decidir se você é tudo que falam mesmo ou se eles não sabem descrever uma pessoa com exatidão.". eu dei um sorriso de canto de boca, daqueles bem sacanas, e falei para que ela não acreditasse em quem tinha dito boas coisas sobre mim, já que meus amigos são todos idiotas de alguma forma. acho que foi essa resposta que fez com que ela esquecesse do resto das pessoas e ficasse por horas conversando só comigo. depois de alguns meses de convivência mais próxima descobri que ela realmente se interessa por gente bem humorada.

nós não marcamos de sair os dois juntos durante os próximos seis meses. até então só nos víamos quando havia alguma reunião de amigos ou coisa parecida. e sempre que elas aconteciam nós ficávamos horas conversando sobre assuntos totalmente incomuns. ela é meio mística e ganhava uns trocados lendo tarot para as pessoas. hoje não são mais trocados, mas ela continua lendo tarot para as pessoas. descobri bastante coisas sobre ela nesse tempo. ela já tinha começado a ser a femme fatale que ela é hoje. quebrava corações com uma frequência absurda, mais ou menos um a cada duas semanas, usava todos os homens como queria e quando queria. nesse ponto ela era mais cafajeste que todos os homens que eu conhecia, inclusive eu. acho que cabe dizer que eu nunca tive nenhum tipo de queda por ela, sempre a olhei como alguém que admira alguma obra de arte. assumo que a ideia já tenha passado pela minha cabeça, entretanto. mas depois que a conheci melhor tive certeza de que ela não era para mim, não me daria muito bem com esse tipo de mulher.

a primeira vez que ficamos só nós dois juntos foi quando ela estava se mudando. ela estava saindo da casa dos pais, indo morar sozinha e precisava de ajuda para instalar chuveiro, essas coisas, que segundo ela, são coisas de homem e que ela sempre se negou a aprender. e como o pai dela estava ocupado com alguma coisa, eu era o único homem que sobrava que ela conhecia que não queria nada sexual com ela. fui lá e fiz meu papel de macho alfa. depois que terminei de arrumar todas as coisas, nós sentamos, bebemos coisas e conversamos mais. até uma hora que ela me mandou embora, literalmente, porque estava esperando alguém chegar. não duvido que estivesse esperando alguém de fato, quando eu saí do elevador no térreo dei de cara com um cara com cara de babaca que fazia bem o tipo dela. ri comigo mesmo e fui para minha casa. na próxima vez que a encontrei, perguntei sobre aquele homem, ela riu e disse que ele não havia passado no teste. eu ri porque eu sempre soube sobre o que era o teste dela.

nós ficamos muito próximos e ela foi ficando cada vez mais forte, cada vez mais bonita, cada vez mais categórica. na cabeça dela só existiam dois tipos de coisa: as que ela gostava e as que não tinham motivo para existir. as últimas ela fazia questão de excluir de todo seu entorno sem a menor dúvida ou problema. elas as liquidava, simplesmente. quantas amizades desfeitas, quantos bate bocas, quantos corações partidos... não o dela, suponho que homem algum nunca tenha conseguido magoá-la a ponto de partir-lhe o coração. nessa época que ela estava descobrindo o tamanho da força que tinha ela ficou praticamente insuportável. talvez seja porque justamente nesse tempo eu fui morar com ela.

é, fiz essa besteira. ela morava sozinha, eu estava com alguns problemas, éramos amigos bem próximos e fui morar lá. não aguentei dois meses. ela tinha uns horários absurdos: resolvia limpar a casa toda às duas da manhã ouvindo rock dos anos sessenta, me acordava às quatro da manhã com um bolo quentinho perguntando se eu queria um pedaço, isso quando ela não chegava com um monte de gente sei lá de onde para terminar a noite. não deu, foi o jeito mais rápido que eu sempre encontrei para ter um lugar meu para ficar. era só passar uns dias na casa dela, muito mais eficaz que a minha mãe querendo controlar meus horários.

o incrível é que ela sempre teve muita gente ao redor dela. gente que ela ajudava, gente que só ficava por ali mesmo, gente que gostava dela e uma pequena legião de homens - e algumas mulheres - que queriam ser o amor da vida dela. acho que ela sempre achou graça de tudo isso. ela sempre achou incrível como as pessoas poderiam gostar dela se ela não se esforçava para que isso acontecesse. e depois de um tempo ela não deixou quase ninguém conhecê-la de verdade, ela sempre me disse que era por proteção, nunca discordei. mas uma das coisas que mais me impressiona é que eu nunca a vi pedindo ajuda para qualquer pessoa. provavelmente ela sabia que ela era uma das mais fortes e que ninguém seria forte o suficiente para ampará-la. é óbvio que ela teve seus momentos de crise, mas como ela lidou com eles eu nunca soube.

depois de certa época na vida, ela sempre fez o que quis, a hora que quis e do jeito que quis. e ninguém era forte ou louco o suficiente para ir contra ela ou contra o que ela queria. tanto que eu estou aqui, ainda falando sobre ela no presente, enquanto eu estou fazendo sua última vontade. falar sobre ela, sem ter preparado nada, sem nem ao menos ter pensado sobre o que eu iria falar porque ela sempre quis espontaneidade perto dela. só fui avisado mais ou menos quinze minutos atrás. todos que estão aqui concordam que ela é o tipo de pessoa que muita gente conhece, mas que pouca gente tem o mérito de conhecer como é de verdade. eu posso dizer que sou privilegiado, porque eu realmente a conheci de verdade, já que sou eu que estou aqui falando sobre ela para vocês. me sinto honrado ao fazer isso, já que ela pediu em uma carta cheia de sentimentalismos e chantagem emocional para que eu estivesse aqui. só li essa carta há pouco, falo mais uma vez, mas a conhecendo como eu a conheci, por mais de trinta anos, sei que ela não faria diferente por qualquer razão.

mais de trinta anos convivendo com ela praticamente diariamente, e é a primeira vez que algo a venceu. e mesmo depois disso, ela continuou mostrando que sempre a vontade dela era a que prevalece. mulher forte. nunca fique muito próximo de uma mulher forte, ela vai marcar toda sua vida. conselho de amigo, eu fiquei perto demais e eu nunca mais serei o mesmo.

6 comentários:

Praguejento disse...

me lembrou muito o estilo de um escritor que eu não me recordo o nome.

imaginei a mulher com a aparência da vocalista do the kills. Não sei porque.

carola colorida disse...

uau!!!

adoraria ser forte como ela, mas estou chegando lah =D

estou de volta ao mundo dos blogs e dessa vez sem foça por favor!
carolacolorida.wordpress.com

cade a amanda Jooo!?
rs
beijos e obrigada pelos comentários no antigo blogger, me fez um bem danado!

Du disse...

Muito gostoso de ler seus textos, admiráveis e envolventes!
Palavras diretas, densas.... cheias de significados.
Parabéns!

Du disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ju disse...

Eu já ui aborrecente, mas não aquele tipo de aborrecente!


Jo, vc tá se superando cada vez mais. Parabéns e um xêro no teu cangote.

aline disse...

gostaria de me ver nesse post hahaha




então, quanto ao ser mesário, geralmente chega só em outubro mesmo.