11.9.09

salada de frutas

eu sou amiga da atual do meu ex. essa é a frase que sempre causa espanto nas pessoas. não entendo o motivo dessa balburdia toda, é normal, natural, sei lá. a culpa não é minha dela ser legal, fui trocada por ela, pelo menos ela é tão legal quanto eu, só tem alguns atributos que eu não tenho, mas isso eu finjo que não sei para poder manter a amizade.

ela não era minha amiga antes, mas nos encontramos algumas vezes ao acaso, sabe como é, cidade grande, mundo pequeno. conversamos como duas pessoas civilizadas, como se ela não soubesse que eu já tinha chupado até o caroço e que ela estava pegando minha baba, e eu fingindo que a fruta não tinha me trocado por lábios mais carnudos. e não é que a menina era boa de papo? conversamos durante horas na primeira vez que nos vimos, o bonitão que deveria ser o centro da discórdia nem o assunto da conversa foi. fiz muita questão de contar pra ela do meu caso da época, sabe, pra não ficar com aquela ciumeira louca e desenfreada. depois da conversa trocamos contatos, email, telefone, essas coisas todas tecnológicas que aproximam as pessoas, continuamos conversando e viramos amigas. não éramos como amigas unha-e-carne, pastel-e-queijo, arroz-e-feijão ou qualquer outra alusão gastronômica que possa ocorrer, simplesmente conversávamos e tínhamos afinidades.

devo admitir que no começo eu queria saber dela com o único intuito de conhecer melhor a jogadora que tinha uma mão melhor que a minha naquela rodada. descobrir os segredos, as coisas que ela poderia proporcionar que eu não poderia, essas coisas de mulher trocada... e aposto que ela também queria a mesma coisa de mim, visto que ela teria que se manter melhor que eu para que não perdesse na próxima rodada. era um tanto difícil, aquietar o ego ferido e o coração partido para falar com ela com cordialidade e conseguir descobrir as coisas que eu queria.

aí que mantivemos contato primordialmente por email, é um jeito ótimo de se conversar com alguém: você tem tempo suficiente para achar o tom ideal para a idéia que você quer passar, além de ter a medida certa de trato pessoal e frio. e como as duas trabalham em escritórios de informática que emails são o principal meio de comunicação durante o expediente, ficava mais fácil ainda. um dia marcamos de almoçar, trabalhávamos relativamente perto, horários de almoço variáveis... almoçamos. conversamos muito também, o pior é que a desgraçada tinha tudo que eu tenho e um pouco mais. esse pouco mais eu demorei um tempo para identificar, mas é aquele tipo de mágica que só algumas pessoas tem, o tipo que acaba por subjugar todas as outras que não possuem tal dom. ela era realmente muito interessante, se eu não fosse tão aficcionada por formas fálicas eu provavelmente teria cogitado ter qualquer coisa com ela na época.

o que me intrigava é que éramos realmente muito parecidas, gostos, ambições, humor em comum. se fosse possível encontrá-la em outra situação provávelmente teríamos virado melhores amigas da noite para o dia. mas não, sempre tem um homem que não vale metade do esforço que desprendemos no meio. por causa dele nossa amizade levou alguns bons meses para ser construída, no meio tempo, ela estava lá com os lábios carnudos dela comendo a fruta que tinha sido minha e eu pulando de fruta em fruta para achar alguma que pudesse ser tão ou mais doce quanto a que ela estava chupando. a verdade é que eu demorei todo esse tempo para conseguir esquecer aquele maldito sabor, e sempre que eu os via juntos me dava fome e o pensar de que ela estava comendo a melhor fruta do mundo me assolava. mas ela era tão legal que até valia a dor alucinante que ela me causava umas duas vezes por mês.

nesse meio tempo chegaram minhas férias. fui viajar para outro país, e outros países, outras frutas. variedade incrível, todas ao alcance das mãos e com direito a amostra grátis, como se fosse um grande mercado de frutas em que os fruteiros dão pedaços de qualquer coisa que você pedir para experimentar. experimentei um pouco e achei a fruta perfeita para mim. doce e ácida na medida certa, gosto novo, formato anatômico, tudo feito milimetricamente pensando em mim. o bom é que a fruta também gostava dos meus atributos frutísticos, então nos demos muito bem. no fim daquele mês voltei para cá e, pasme, a fruta também, largou tudo lá e veio comigo.

quando cheguei de viagem com a minha fruta fui logo achar um jeito de marcar algum encontro social com a fruta ex e a mais minha mais nova amiga em potencial. aí que todos nos demos muito bem, conversamos como se fôssemos amigos de faculdade. as duas frutas se acharam o máximo e ficaram bem próximas. isso aproximou bastante a atual de mim, com as duas frutas se dando tão bem, não tínhamos muitas opções além de deixar a amizade crescer, uma vez que ela já não se sentia intimidada por mim e não doía mais em mim vê-la se deliciando com uma das frutas mais gostosas que eu já tinha comido.

viramos melhores amigas, enfim. nos ajudamos profissionalmente, trocamos dicas de cozinha, saíamos para comprar lingerie juntas e eu até dei umas dicas sobre os jeitos ainda desconhecidos por ela que a fruta que já pertencera a mim preferia que fosse mordida. no meio tempo, as frutas se aproximaram muito também, eram da mesma espécie, tinham quase as mesmas características, a diferença básica é que a fruta nativa era tropical e a importada setentrional.

tudo ia muito bem até o dia em que as frutas propuseram fazer uma salada conosco. pensamos juntas, conversamos bastante e decidimos que faríamos a tal salada. misturar gostos é uma coisa para poucos corajosos, e coragem era o que não nos faltava. a salada de frutas foi uma coisa incrível, deliciosa por completo. foi tão bom para todos que passamos a fazer isso com uma certa periodicidade. no meio da salada cada um de nós teve a chance de experimentar a fruta da mesma espécie que estava lá. e, bem, não posso dizer que não gostei... falando a verdade eu gostei muito, até acho que está virando meu tipo preferido de fruta. conversei com ela, ela está tendo os mesmos pensamentos que meus, afinal somos parecidíssimas.

agora estamos tentando achar um jeito de contar às frutas que mudamos de gostos e talvez não queiramos mais fazer uma salada com tanto sabor, preferimos um sabor diferente isolado daquela mistura toda. como iremos falar eu não sei, mas ela está de acordo comigo e eu com ela.

quero só ver o que as frutas vão achar disso tudo quando chegar a ocasião que planejamos expor nossas preferências gastronômicas. mas eu acho que tanto a fruta setentrional quanto a tropical gostaram tanto uma da outra quanto nós duas, então, acho que nem vai ser nada muito traumático para elas.

5 comentários:

Sabrineeee GanchooO!! disse...

uahsuahuahsauh, mto bom Jô!!
^^
adorei!!

saudades.
beijos!

Mariana N. disse...

se você não tivesse falado FRUTA! tantas vezes no mesmo paragrafo, estaria bom. muita palavra repetida não fica assim muito legal, sabe?
fora isso, gostei do texto!

Olívia disse...

Que legal isso, parece até novela!

Ju disse...

"sempre tem um homem que não vale metade do esforço que desprendemos no meio." ABAFAAAAAAA!! kkkk

Doray jo, sabe que eu adoro o q vc escreve [teclado maldito do carai]

desisto de tentar o contato com vossa senhoria, gostaria de vê-la nessa semana, perua. Bitte, entre em contato.

Lov u so much!

Edilson Marques disse...

Frutas apodrecem.