4.9.09

busca ao sentido

ouvia o som de suas pálpebras piscando enquanto olhava para o teto e as paredes tentando descobrir o que acontecia em sua vida. seria só um sonho? seria uma realidade paralela? havia passado a noite com os olhos abertos tentando achar respostas para uma pergunta que nem sabia ao certo. não chegara à resposta alguma, também, pudera, não tinha inteligência exuberante, nem de charme ou qualquer outro atrativo que valesse à pena ser comentado. era só uma pessoa normal que jamais poderia chegar a uma resposta para uma pergunta que não se sabia qual era. mesmo sabendo que uma pessoa normal não está normalmente numa situação desse tipo.

como se metera em tal problema? como as coisas progrediram até chegar ao dado estado assombroso de existência? o que teria feito para culminar ao infame ponto? não sabia responder, a única coisa que sabia era que tudo ao seu redor estava decaindo e caindo num abismo tão profundo que o que passava da metade da queda em direção ao chão jamais poderia ser recuperado. desconforto? desespero? medo? nada disso, apenas calma e indiferença. se perguntava como alguém sentimental poderia estar tão indiferente ante à situação tão aterrorizadora. como antes, não chegou a resposta alguma e parou de se perguntar. ao menos para essa falta de resposta tinha uma pergunta, não que fizesse muita diferença, no entanto.

ao refazer seus passos reparou que as coisas simplesmente aconteceram daquela forma, sem nenhum motivo específico, sem nenhum padrão, tudo só aconteceu. pensou e repensou em suas atitudes, não havia feito nada que fosse realmente errado ou algo que a sociedade condenaria como coisa ruim. se esforçara para ser uma boa pessoa! tentara ao máximo fazer com que todos se sentissem bem. tentara em sua melhor intenção fazer com que jamais magoasse alguém. como algo assim não era contabilizado? deveria haver algo de muito injusto pairando o ambiente.

se virava na cama e ouvia o som de seus músculos e articulações rangendo, o som do colchão se deformando ante ao peso de seu corpo. nada daquilo fazia sentido algum; tentava e tentava e tentava achar alguma resposta e alguma pergunta certa mas não obtera sucesso. desejou ter muito mais ou muito menos capacidade de raciocínio, assim talvez conseguiria viver em paz sem ter as perguntas e suas respectivas respostas ou não ter pergunta alguma, ser inerte e ir conforme a correnteza poderia levar. seu maior problema era ficar na mediocridade de quem não está confortável com as indagações infundadas e sua ausência de perguntas.

só poderia ser uma realidade paralela, um mundo estranho que não era habitado por mais ninguém. como ninguém mais conseguiria sentir as mesmas coisas que sentia? como alguém não sentia a dúvida latejando em seu âmago? tudo parecia muito supérfluo: a vida, as relações sociais, a necessidade de viver em sociedade... por quê? para que tudo aquilo existia? só para medíocres passarem o tempo em que estavam conscientes perseguindo respostas para perguntas que eles jamais saberiam fazer propriamente? tudo parecia muito sem sentido aos seus olhos. olhos que ardiam e lacrimejavam por estarem abertos por tempo demais e por autocompaixão, aquela situação desagradava demais para continuar rolando na cama, estava com sono mas não conseguia dormir, precisava achar um jeito de conseguir entender tudo aquilo.

orgulhou-se por ter forças suficientes para levantar e preparar uma mochila para achar o sentido da vida, não era algo fácil de se fazer quando não se queria mais nada. olhou ao seu redor com a certeza de que jamais veria aquela casa novamente, um olhar saudoso de quem se despede de um ambiente que foi por muito tempo habitado, um lugar familiar que trazia segurança só por saber que existia. colocou a mochila nas costas e saiu.

sem companhia, sem direção e sem expectativas por muito tempo, dias, meses, talvez anos. perdera a contagem do tempo, sabia que o tempo realmente passava porque seu cabelo crescia e por alguma razão desconexa se lembrava que os cabelos cresciam até mesmo depois da morte. se soubesse que era uma lenda talvez tivesse perdido menos tempo pensando que morrera e não percebera. andava, comia o que conseguia, descansava onde podia, não tinha a menor concepção de onde estaria indo ou de onde chegaria, só andava. por muito tempo pensava na ausência de perguntas, na ausência de respostas, no sentimento constante de que algo estava brutalmente errado. havia perdido a sanidade? havia esquecido quem era? não, isso nunca soube na realidade, esquecera seu nome, sua idade, sua família, mas jamais soubera intimamente quem era.

muitos anos depois, talvez décadas, andarilhando pelo mundo uma senhora de cabelos compridos e prateados lhe ofereceu comida e algum conforto para algumas horas de descanso. depois que havia descansado e se alimentado propriamente a senhora reapareceu e começou uma conversa que no começo parecia despretenciosa e amigável. indagou-lhe a razão de abandonar tudo, recebeu como resposta a ausência de perguntas e respostas certas. a senhora, então, sorriu e lhe disse que alguns quilômetros à frente havia um grande penhasco e lhe assegurou que no meio do caminho até o chão encontraria as perguntas certas e quando chegasse ao chão encontraria as respostas para as perguntas.

ao chegar à borda do grande penhasco começou a descê-lo se apoiando em pedras e pequenas reentrâncias em sua parede. a senhora observava ao longe com um semi sorriso em seu rosto. quando escorregou e caiu desfiladeiro abaixo, a senhora só contemplou e exclamou para si mesma: "mas eles nunca aprendem, he, he, he." - se ela soubesse que, exatamente ali naquele momento, as perguntas certas foram feitas e ao tocar o chão as respostas foram alcançadas ela talvez não tivesse capacidade de exteriorizar enfadonho comentário...

Um comentário:

Mariana N. disse...

rolou abismo abaixo.
num sei pq, eu ri de lembrar daquele episódio dos simpsons =B