18.5.09

asteróide, venha logo, por favor! ou o conto da moça e do moço

ela era uma moça, assim, meio sem coração, não gostava de ninguém de verdade. era calma, relaxada e fácil de se lidar. para falar a derradeira verdade, a moça não se importava com nada, tampouco com si própria. adotara um comportamento autodestrutivo há muitos anos para ver se conseguiria ser extinta - sem herdeiros - mais cedo da face da terra. ela, ainda por cima, ostentava uma pequena coleção de camisetas com os dizeres "asteróide, venha logo, por favor!". há muito tempo a moça não odiava nada a mais, já tinha odiado com todas as suas forças tudo que era possível: os pais, a política, o país, os seres humanos em geral... até um dia em que se cansou deste sentimento destrutivo e passou a, simplesmente, ignorar tudo que fosse medíocre ou que dissesse respeito à coletividade humana.

apesar da indiferença ela era comum. tinha um emprego que gostava, família, amigos, namorado... é necessário que seja elucidado que ela mantinha todos perto de si somente por necessidade, estritamente por egoísmo, cada um deles lhe sanava em o que lhe pudesse faltar. egoísta era, má pessoa não, a não ser que possa ser alguém que perdera o gosto pela vida uma má pessoa.

entretanto, algumas coisas lhe eram capazes de proporcionar secretamente absoluto prazer: desastres naturais de todos os tipos, mortes das formas mais idiotamente absurdas - como alguém que morre congelado ao tentar escalar uma montanha muito alta -, crianças batendo diretamente com o rosto contra portas de vidro, doenças desconhecidas, muito contagiosas e mortíferas. ela gostava mesmo é de ver o que ela chamava de massa ignóbil e acerebrada despopulando o mundo, para que este pudesse vir a ser um lugar melhor povoado.

a moça começou a perceber que ela vinha tendo momentos de absoluto prazer cada vez mais frequentemente, e achou um tanto estranho. decidiu mudar um hábito praticamente enraizado e começou a analisar o mundo como um todo. percebeu que a massa estava cada vez mais vil e fazendo coisas estúpidas como nunca. os desastres naturais estavam ficando cada vez mais recorrentes, além de passarem a ocorrer em lugares não comuns, causando enorme surpresa; as grande massa havia aprimorado sua estupidez a um patamar jamais alcançado, estavam literalmente se matando por coisas tão pífias que não valeriam nem a menção póstuma. ficou estupefata quando percebeu que o mundo não os queria mais lá, e estava fazendo seu máximo para desalojá-los da terra apossada. notou que estavam todos muito perto de seus fins, as pessoas, os animais, as nações, o mundo e ela mesma. e sentiu-se feliz como jamais ficara em sua vida, porque além de perceber que tudo estava ruindo, ela seria capaz de presenciar tal ruína.

entretanto, não houve fatos progressivos que culminaram para o derradeiro fim. a situação ficara um pouco mais exacerbada, há de ser mencionado, mas nada que justificasse o que viria a ocorrer. foi meio inesperado e um tanto natural, nada de seres extra terrestres explodindo o mundo ou coisa do tipo. o mundo simplesmente resolveu entrar em colapso por si só. começou praticamente da noite para o dia, a diferença é que foram sete noites e sete dias, seguindo geograficamente o nascer e o pôr do sol do oriente ao ocidente.

os primeiros acontecimentos foram os vulcões ativos e inativos que começaram a jorrar o sangue caloroso da terra graciosamente sincronizados como bailarinas russas. o fenômeno se espalhava conforme a luz do sol tocava a terra, assim foi em todos os continentes, sem distinção alguma entre credo, cor, riqueza ou pobreza. o mundo estava farto dos seres parasitários assim chamados de seres humanos. assim que a lava começou a ser expelida, os noticiários do mundo inteiro relatavam o que parecia ser o efeito mais estranho que já se tivera notícia em toda a história conhecida. a população começou a entrar em desespero, as autoridades tentaram acalmar a situação dizendo que tudo se normalizaria em breve - por mais que eles não fizessem a menor idéia do que acontecia - e pediam veementemente para que a população das áreas não afetadas mantivesse a vida normal e continuasse com seus hábitos diários. e a moça parecia ironicamente feliz.

no dia seguinte, em sucessão às erupções vulcânicas, veio o grande terremoto. desta vez, nenhuma parte da crosta foi deixada de lado, toda ela tremeu violentamente seguindo o caminho que o sol fazia, como uma onda enorme que se move lentamente em direção à praia. o terremoto não durou por mais de dez minutos em cada parte da terra. houve destruição e muitas mortes, poucas edificações se mantiveram em pé, o que dificultou muito a chegada de informação para a população mundial e o caos se instaurou. as pessoas corriam de um lado para o outro tentando, em vão, salvar suas vidas. começaram a se matar para conseguir viver um pouco a mais, roubavam mantimentos e água uns dos outros e rezavam - inclusive muitos que se consideravam ateus - para que tudo voltasse ao normal o mais brevemente possível. a essa altura dos acontecimentos, a moça estava radiantemente feliz, pegou um pouco de comida, água e alguns maços de cigarros de sua casa e foi calmamente para a parte de cima da maior montanha inabitada de sua cidade, de lá poderia ver melhor o caos tomando conta de tudo que seus olhos eram capazes de alcançar ao seu redor.

o terceiro nascer do sol trouxe a ira das águas. inundações, tsunamis, rios se tornando imensos oceanos levando todo o seu entorno consigo. chuva, muita chuva torrencial. muitas ilhas foram varridas para baixo dos oceanos, milhões de pessoas morreram afogadas. já não havia mais telecomunicações, toda ela havia sido dizimada por conta dos acontecimentos até então. um pedaço da montanha em que a moça estava cedeu, mas ela se moveu para uma outra porção que ficou a mostra feita somente de pedra e lá adormeceu a espera do dia seguinte.

o sol fez com que o vento se mexesse com muita força e rapidez quando a manhã chegou, de forma com que a água ficasse cada vez mais revolta e a levou para as áreas mais altas, as árvores que se mantinham em pé até então balançavam absurdamente e algumas saiam voando, tudo voava com a graciosidade que a situação conseguia colocar em prática. o tempo de ventania foi muito mais demorado do que o do terremoto, ventou incessantemente por horas a fio. a moça conseguiu se abrigar em um lugar seguro e conseguiu não ser levada pelo vento. pôde notar que depois que o vento cessara a água baixava rapidamente, da mesma forma que uma pia esvazia quando se tira o tampão. nesse dia ela não conseguiu fumar um cigarro sequer, somente à noite, quando o vento passou, ao assistir, com extrema felicidade, à água voltando ao nível normal sob a luz da lua.

o quinto dia desde que o mundo decidira expulsar os seres humanos de seu domínio começou com um zunido muito estranho, exatamente o som de todos os insetos do mundo aglutinados em um grande exército por ar e solo. a grande nuvem que ia do céu à crosta se movia lentamente consumindo os corpos inertes dos que já haviam sucumbido e dos que ainda lutavam por suas vidas. o fenômeno durou por muito tempo, do nascer ao pôr do sol. a moça não temeu o destino que ela tomara por certo quando viu a nuvem de insetos homicidas vindo em sua direção. acendeu um cigarro e esperou que chegassem e a consumissem. incrivelmente, eles voaram por sobre ela e mudaram o caminho em terra de forma a evitá-la. a única possibilidade que ela conseguiu pensar foi que a fumaça do cigarro fora capaz de repeli-los. logo depois reparou que ironicamente o cigarro tinha salvo sua vida, ou pelo menos postergado o fim até o dia seguinte.

na sexta manhã ao acordar a moça percebeu que não havia movimentação, correria, gritos histéricos, movimento, choro, nada proveniente de seres da mesma espécie que a dela. logo pensou que ela seria um dos últimos seres humanos na face da terra. a calmaria durou pouco tempo, um pouco depois do nascer do sol tudo que havia acontecido anteriormente retornou com força total, todas as catástrofes juntas como se fossem membros de um time que estava jogando para ganhar. quando a moça percebeu que todas as catástrofes vinham juntas em sua direção, em velocidade extraordinária - parecendo que o mundo, para garantir que o serviço fora bem feito, juntava todas suas armas para garantir que não sobrasse ser algum vivo -, decidiu enfrentar sua tão esperada e estimada hora de peito aberto se entregar, finalmente, à morte. levantou-se, abriu os braços, fechou os olhos e esperou. esperou... esperou... esperou... abriu um pouco os olhos e só viu a destruição ao seu redor, mas ela continuava viva. abriu totalmente os olhos e arriscou se mexer. analisou cada pedaço de mundo que seus olhos podiam alcançar e não entendeu o que havia ocorrido, se sentou. fumou um cigarro. contemplou o mundo devastado pelo resto do dia, ainda achando muito estranho que estivesse viva e sem qualquer sequela. o anoitecer não tardou e ela adormeceu.

no sétimo dia desde o início do fim ela foi acordada por um homem. a visão do homem a assustou e ela se sentou em sua pedra e o indagou sobre quem ele era e como ele tinha conseguido sobreviver a todos os acontecimentos daquela semana. o homem explicou que tinha dado um trabalho enorme acabar com o mundo e aquele seria seu dia de descanso, uma vez que todos tinham sucumbido à exceção dela e de mais um ser de mesma espécie. a moça achou que estava sonhando, ou alucinando, ou que tinha morrido durante o tempo em que dormira. logo depois de ela pensar isso, o homem disse que estava ficando tarde e que ele precisaria descansar e foi embora. ela passou o sétimo dia inteiro pensando sobre aquele homem estranho.

ao anoitecer daquele dia, o moço veio a seu encontro. ele parecia cansado, imundo, exatamente como se tivesse enfrentado o fim do mundo nos últimos dias. ele disse que pela manhã um homem estranho o havia visitado e que ele tinha falado onde encontrá-la. ela conversou com o moço durante grande parte da noite, contaram exatamente o que o homem tinha falado anteriormente para cada um deles. ao que parecia, só restavam os dois no mundo. depois de ficarem atônitos com essa idéia, conversaram sobre como tinham sobrevivido aos dias de caos e adormeceram.

acordaram no dia seguinte com o raiar do sol, ficaram impressionados ao ver como o mundo que existia antes e fora destruído tinha desaparecido e em seu lugar havia natureza intocada. a moça com toda a ironia e indiferença que lhe era peculiar exclamou:
"ah, que maravilha, deus deixou para nós um mundo novo em folha! só falta sermos adão e eva! então me ajude a achar uma macieira, sim?"
logo depois de tal exclamação o homem reapareceu e disse para a moça e para o moço:
“tentem fazer um trabalho melhor dessa vez, por favor.”

3 comentários:

Edilson Marques disse...

Adoro servir de inspiração. ADORO.

Sabrineeee GanchooO!! disse...

UHASUHAUSHUAHSUAHSUAH!!!

BOM DEMAIS!!!
UASHUSAHUSAHSAUHUSAH

BobZeeLa disse...

Meio bíblico, diria!
mas seria perfeito se isso acontecesse! se acontecesse comigo então, seria mais perfeito ainda. hohohoh