30.12.09

a fábula do pobre senhor kennard

uma vez, não muito tempo atrás, em um lugar que poderia ser o seu país, havia uma máfia estranha. era estranha porque não era uma máfia, na verdade. nas sutilezas de senhora goldmeier não estavam inclusas apostas, extorsões, ameaças, assassinatos nem nada similar a uma máfia, porém seu poder e influência estavam acima dos políticos do lugar. e a senhora goldmeier era uma pessoa de princípios, para o infortúnio do senhor kennard.

"pobre senhor kennard!" eles diziam com pena, todos sabiam o poder que a família goldmeier tinha. família goldmeier, vale-se dizer, era como a senhora goldmeier chamava aqueles que eram próximos a ela. posições que eram realmente almejadas por todos que viviam naquele país. a senhora goldmeier teve uma infância difícil, seu pai era um mero mineiro e sua mãe lavava roupas para ajudar com dinheiro para educação da pequenina filha do casal. os dois morreram bem cedo, deixando a então menina goldmeier no começo de seus 13 anos desamparada e sozinha. o que ninguém esperava, entretanto, era que ela tivesse facilidade tamanha ao lidar com pessoas e seus desejos. quase todas as vontades que ela ouvia, ela conseguia transformar em realidade. não era mágica, não era dinheiro, ela convencia pessoas a fazerem favores para ela, sem a garantia de nada em troca, só a promessa de que quando tivesse algum desejo, ela daria seu máximo para realizá-lo. as pessoas não imaginavam o quão astuta a senhora goldmeier poderia ser. então, como uma facilitadora de comunicação entre pessoas, a senhora goldmeier conquistou seu império.

como característica comum a todo imperador, a senhora goldmeier não era sempre bondosa. ela tinha regras simples e muito bem embasadas em seu moral, mas ela punia quem não seguia as simples regras. ela não matava, ela não extorquia, vale dizer, novamente, que a senhora goldmeier não era violenta nem tampouco violava as leis de direito que regulavam o país. na verdade, ela realmente não fazia coisa alguma. mesmo assim, quem caia na desgraça da família goldmeier, estava fadado ao infortúnio e ao fracasso. muitos tentaram derrubar seu império ao longo dos anos, assim como o pobre senhor kennard, mas todos que estavam nas graças da senhora goldmeier ficavam incomodados com a situação, "como alguém pode tentar esse tipo de coisa com a maior benfeitora do país?" eles diziam. então, talvez o leitor já tenha entendido como a senhora goldmeier poderia construir ou destruir vidas. ela, na verdade, não tomava qualquer ação, mas todos os outros boicotavam quem fosse contra o que ela propusesse.

o senhor kennard era um mercante de tecidos finos, daqueles que não são encontrados facilmente e de beleza tamanha. no começo de sua carreira como vendedor, ele ia de porta em porta oferecendo seus produtos. por vezes vendia bastante, por vezes não vendia uma única peça, o que tornava o trabalho não tão sólido para conseguir seu sonho de abrir uma loja. uma tarde, enquanto estava vendendo tecidos de porta em porta, ele bateu à porta do casarão goldmeier. a senhora goldmeier tinha o costume de atender suas visitas pessoalmente e abriu a porta para o vendedor. como bom vendedor, o senhor kennard vendeu seu produto de tal forma que inspirou a senhora goldmeier a oferecer-lhe ajuda. "senhor kennard, não seria de seu interesse ter uma loja física para que assim o senhor possa vender mais e se cansar menos?" ela disse, o senhor kennard assentiu dizendo "na verdade, é meu maior sonho, senhora goldmeier.". e em menos de dois meses desde aquela conversa a loja kennard de tecidos finos e raros já estava funcionando.

em seus passeios pela cidade, a senhora goldmeier sempre via como estavam indo os negócios e os sonhos de seus protegidos. "e como estão as vendas de sorvete, senhora berjkley?", "muito bem, senhora goldmeier, o tempo tem ajudado fazendo bastante calor!", "como vão as vendas de tecidos, senhor kennard?", "muito bem, senhora goldmeier, as pessoas estão cada vez mais adquirindo gosto por coisas realmente belas.", parava em cada estabelecimento de seus protegidos e perguntava a mesma coisa semanalamente. era bom ser protegido da senhora goldmeier, mas todo protegido tinha a obrigação praticamente moral de ajudá-la quando ela pedia um favor.

foi justamente essa obrigação moral que faltou ao senhor kennard uma vez que a ele foi pedido um favor. ele negou a ajuda dizendo que estava em falta de tecidos. mal sabia o pobre senhor kennard que a imperatriz goldmeier tinha olhos e ouvidos em todos os lugares, em todas as horas. ela soube, por um membro da família que ela confiava o suficiente, que o senhor kennard tinha os tecidos que ela havia pedido, mas que ele não quisera ajudar porque planejava abrir outra loja em uma cidade nas redondezas e precisava de estoque para começar o negócio. "deixe estar, deixe estar..." disse a senhora goldmeier ao ouvir as notícias.

muitos anos se passaram até que a imperatriz goldmeier precisasse novamente dos tecidos do senhor kennard para ajudar outra pessoa a realizar um sonho. durante esses anos o senhor kennard prosperou e a senhora goldmeier conquistou mais poder ainda. sabendo que a ajuda já havia sido negada uma vez, ela foi pessoalmente à loja do senhor kennard para pedi-lo por seu favor. vale dizer que ele não desenvolveu qualquer senso de moral durante esses anos e negou novamente. desta vez foi pura e somente ganância, já ele era um mercante de sucesso, tinha muitas lojas pelo país e já havia consolidado grande fama por seus tecidos.

"seja cuidadoso, senhor kennard. já é a segunda vez que o senhor me nega um favor. não haverá uma terceira." a senhora goldmeier disse calmamente ao ouvir a negativa para seu pedido. "está me ameçando, senhora?" ele perguntou e, ultrajado, disse "eu sou o maior mercante de tecidos finos que existe neste país, e tudo que eu conquistei foi resultado do meu trabalho duro!", a senhora goldmeier, sem perder a pose, disse "não ameaço pessoas e não duvido que tenha trabalhado duro, senhor, mas não se esqueça que teve ajuda fundamental durante sua carreira.", então, ela acenou para um membro da família que a acompanhava e estava vendo tecidos e deixou a loja. enquanto se dirigia para outra loja para fazer a inspeção rotineira de como estavam os negócios, o senhor kennard saiu esbravejando pela rua, "a senhora goldmeier é uma impostora, ela prometeu que iria acabar com meu negócio, iria destruir minha carreira, minha vida e a de minha família! esta senhora é uma impostora!", ao ouvirem os gritos todos que passavam pararam para ver o que estava acontecendo e a senhora goldmeier continuou seu caminho, impassível, em direção a seus afazeres.

depois do colapso nervoso do senhor kennard suas vendas caíram drásticamente e em menos de um ano ele fechou as portas da última loja que conseguiu sobreviver por mais tempo. desolado, andava pela rua cabisbaixo, com olheiras fundas e olhar ausente mirando sempre para baixo. todos que o viam exclamavam "pobre senhor kennard!", mas a pena logo passava quando se lembravam de como ele era mesquinho e ingrato. quando soube do princípio de comoção que estava se instaurando na cidade, a senhora goldmeier o chamou para conversar em sua mansão.

"bem-vindo, senhor kennard, posso lhe oferecer alguma coisa?" ela perguntou logo que ele se acomodou em uma poltrona. ele, que nunca deixava seu orgulho de lado disse, "sim, senhora goldmeier, obrigado. a senhora poderia me dar minha vida de volta, a vida que a senhora tirou de mim.", entre risinhos ela replicou "oras, senhor kennard, eu não lhe tirei coisa alguma. foi o senhor quem fez tudo.", como ao ouvir a resposta dada ele adotou uma postura mais defensiva e agressiva, antes que pudesse balbuciar qualquer coisa a senhora goldmeier disse, "senhor kennard, a sociedade desse país é baseada unicamente na bondade das pessoas. elas se ajudam mutuamente a conseguirem o que querem, eu só ajo como uma facilitadora. quase todos percebem isso. quando um ataca quem facilita as coisas para todos, no caso eu, todos viram as costas e param de ajudar quem atacou. veja bem, eu tolero um grande erro. não gosto de pessoas que não conseguem aprender com seus próprios erros, o senhor cometeu dois. e logo depois de cometer seu segundo erro, o senhor cometeu um erro fatal, que foi duvidar da minha lealdade e bondade para com meus protegidos, esse tipo de coisa as pessoas toleram menos ainda. e foi justamente esse erro que fez com que o senhor fechasse todas as suas portas neste país. eu poderia deixar o senhor vagando pela cidade, vivendo de esmolas que as boas pessoas lhe dão por pena, mas isso não é bom para a sociedade que existe aqui. então, eu lhe dou esse dinheiro, que é o suficiente para uma passagem para outro país, longe daqui, e para que o senhor recomece sua vida exatamente do jeito que ela era antes desse povo lhe ajudar. o senhor não é bem vindo nessa sociedade. espero que seja inteligente o suficiente parar partir e nunca mais voltar. espero realmente que aprenda a lição nessa terceira vez."

ao terminar a conversa, o senhor kennard partiu e nunca mais foi visto aos arredores daquele país, a senhora goldmeier continuou facilitando as coisas para todos e vivendo de presentes que ela recebia das pessoas que eram gratas pela sua ajuda. vários senhores kennard passaram pela história do país enquanto a senhora goldmeier estava presente, mas há de se dizer que ela não foi tão bondosa com todos.

3 comentários:

Ju disse...

Mto bom Jô! Doray!

Saudades mega blaster da vossa senhoria.

Beijones.

Edilson Marques disse...

Dom Vito Corleone says: "Vou te fazer uma proposta irrecusável"...

aLinÃo disse...

voltei pros blogs, mano!

demorei mas li a fábula... eu gosto de ler o que vc escreve, jô! S2

**Kennard vc tirou de the L word, né?