13.3.09

o cara

ele era um daqueles caras da elite, sabe? elite financeira, elite cultural, elite intelectual, entendia de tudo um pouco, ou melhor, de tudo um muito. o cara era super cheio de si, tinha um emprego de bosta, há de se convir, mas ele se achava o tal.

a parte elitista financeira vinha de seus pais, sim, ele tinha quase trinta anos e morava com os pais. sempre que conseguia alguma menininha para comer, a levava pra um motel barato e pagava só por três horas, depois a deixava em casa e ia para a casa dos pais dele, isso quando conseguia pegar o carro da mãe emprestado...

a parte elitista cultural provinha de seus pais também, eles mostraram para o cara os melhores autores, filósofos, pensantes europeus, russos, americanos e hindus. o cara leu mas nem achou tudo isso, para ele aqueles caras eram uns loucos que não tinham mais o que fazer, mas continuava os lendo só para dizer que lia hemingway, nitsche, wilde, dostoiéviski e outros autores renomados pela parte culturete da sociedade. afinal o cara precisava citar que conhecia obras deles para ser aceito pelas outras pessoas que também faziam parte da elite cultural, porque esse povinho é muito fechado, se você não leu irmãos karamazov nem o anticristo você não pode entrar para o clube. e ele queria fazer parte do clube, só para se mostrar mesmo. só para falar que conhecia, depois ele procurava por opiniões formadas de leitores que liam os livros com alguma intenção real e as plagiava na maior.

a parte elitista intelectual foi sorte mesmo. ele tinha uma predisposição exacerbada para as ciências lógicas, mas ser matemático, ou físico, ou contador, ou engenheiro não é cool, então ele tentava ser filósofo, tentava ser pensador, tentava ser cultural, tentava entender o filme alemão, quando, na verdade, o que ele gostava mesmo era de rambo e exterminador do futuro, mas exterminador do futuro II, porque os efeitos especiais são super bacanas. gostava de explosão e barulho em filmes, talvez seja por isso que nunca realmente entendeu nem achou graça no woody allen. mas não se pode negar que o cara era inteligente. não era a pessoa mais inteligente do mundo ou da cena cultural, mas era até espertinho.

então o cara ia vivendo assim, trabalhando num emprego de bosta que não requeria tanta capacidade intelectual que até um primata poderia realizar sem maiores problemas, só para pagar as bebidas destiladas meio caras que ele tinha tanto orgulho em beber sem misturar nada, para pagar o cigarro que ele fumava só para parecer inteligente e com conteúdo e para pagar a gasolina do carro que ele pegava emprestado da mãe aos fins de semana.

o cara era uma fraude. ele sabia que era uma fraude e fazia de tudo para escondê-lo. ele fingia que entendia muito sobre muitas coisas, ele fingia que entendia os filmes que assistia e os livros que lia, por fingir tanto, quando estava com pessoas que realmente entendiam daqueles assuntos ele ficava meio quieto e, quando indagado, dizia estar introspectivo pensando na imensidão do pensamento humano sobre determinado assunto. só falava sobre as coisas culturetes com pessoas que não eram culturetes, porque estas o consideravam uma pessoa de respeito e de intelectualidade tamanha. quando discutiam sobre política ele dizia que não gostava de falar sobre isso porque todas as discussões eram sempre iguais.

mas o cara era temente a deus. família tradicional católica, com mãe e avó católicas fervorosas. foi batizado, crismado, coroinha e toda essa putaria da igreja. ele não era lá muito católico e tinha a consciência pesada por isso, no dia do julgamento final, deus iria listar as vezes que ele transou com camisinha e as vezes que foi sacana com outros. ele acreditava piamente nisso e temia esse dia como uma virgem teme a primeira transa com o namorado pintudo.

mas o cara conseguiu o que ele queria, tinha o cabelinho da moda, usava óculos só pra parecer inteligente, era aceito pelas outras pessoas culturetes de fachada e se contentava com isso. o cara dizia que ainda faria algo tão imenso que seria mais vanguarda do que a cena modernista da década de vinte.

o cara era vazio, ele só fazia essas coisas porque ele achava as pessoas intelectualóides bonitas e com conteúdo e queria ser igual. ele só falava as cosias que ele falava porque ele achava que as pessoas intelectualóides achariam legal e ele só usava as roupas que ele usava porque se ele usasse calças lee e camiseta da hering ele seria desprezado pelos amigos dele.

um dia, depois de anos de viver desse jeito sem maiores contratempos, chegou outro cara que desmascarou o cara, assim, meio sem querer. o cara ficou sem chão, se trancou no quarto por muitos fins de semanas, só saía para trabalhar porque ele tinha certeza que não conseguiria outro emprego se fosse dar um ataque de estrelismo mimado e seu pai cortaria a mesada se ficasse desempregado. e ficar sem dinheiro, sem conteúdo e sem amigos era demais para o cara.

ficou velho e herdou a fortuna do pai e da mãe mortos de velhice. agora o cara era cinquentão, assistia muita pornografia, ficava semanas sem se barbear e passava os dias de cuecas e meias brancas. suas únicas companhias eram a empregada da casa que cuidava para que o cara não morresse de fome e algumas acompanhantes que ele pagava um tanto caro para que fossem à sua casa. vale dizer que o cara gastava uma pequena fortuna em viagra, que ele carinhosamente chamava de ecstasy.

o cara morreu um dia desses, uma acompanhante das mais safadas o sufocou com o travesseiro quando ele roncava a altos brados depois de uma rapidinha de dez minutos e logo depois roubou todo o dinheiro do cofre, aparelhos eletrônicos e jóias da mãe finada. a acompanhante disse depois que foi o dinheiro que ela havia conseguido de forma mais fácil, ela disse que o pau do cara era tão pequeno que ela nem sentiu nada, já que ela era um tanto rodada na praça.

o que aconteceu no julgamento final?
nem o cara sabe na verdade, e olha que ele era o cara.

4 comentários:

aline disse...

um dos seus melhores, hein.


matou o cara e ainda espalhou que tinha pau pequeno... isso não é coisa que se faça...

Edilson Marques disse...

O cara era um bosta. Já desmascarei uns dois ou três desses. EU sou o cara. :)

Eu, Paula T. disse...

oi

BobZeeLa disse...

ser o cara de cú é ROLA...