27.10.10

terminal

estou doente. doença daquelas avassaladoras que chegam como um furacão e fodem com tudo pela frente. como eu fiquei doente? não faço a mínima ideia, um dia notei uma dor chata que não ia embora em meu ombro esquerdo. não é nada relacionado ao coração, artérias ou coisa do tipo. era mais um nódulo ou coisa assim. não doía muito, nunca doeu muito, na verdade. então vieram os enjoos. os mal estares. fui levando, precisava ganhar a vida, precisava ajudar aos que me importavam.

aguentei alguns anos, insônia, dores crônicas. médicos? médicos não, eles iam querer descobrir o que havia de errado e eu não tinha tempo. não tinha tempo para consultas, nem para exames, nem para toda a política de tentativa e erro que há em diagnósticos. depois viriam os prognósticos e eles não seriam nem um pouco amigáveis. talvez fossem, se considerasse uma amizade de férias.

como eu sei de tudo isso? porque alguma hora eu precisei ir a um para conseguir alguns remédios para as dores, não aguentava mais tanta dor. então veio a sabatina de exames. raio x. "você tem uma massa dura aí.". ressonância magnética. inconclusivo. tomografia. "acho que precisamos de uma biópsia.". e quando os resultados chegaram, "metástase.". alguns meses nesse processo, tomando os remédios que eu queria. ainda não sei porque não tentei com aspirina primeiro. jovem para um câncer com metástase, bem jovem. pelo menos vivi o suficiente enquanto pude. apesar de que eu ache que eu trabalharia um pouco menos se soubesse que ia ser assim rápido.

o irônico da situação é que nunca tive medo de morrer, ou da morte em si. sempre achei que algum dia aconteceria, mas que estava tão longe e tão fora de perigo que nunca achei que fosse realmente acontecer. sempre supus que morreria em um acidente súbito ou de velhice. me enganei. vai ser de uma doença que mostra que meu corpo é mais fodido que a mente de um louco, porque ele é tão louco que não consegue controlar as próprias células que se replicam.

agora tenho nódulos por todo o corpo, alguns doem, outros não. alguns coçam, outros deixam a pele irritadiça. os últimos são os mais irritantes, porque fica tudo tão sensível que o mais leve toque traz uma dor lacinante. não dá para explicar, só sentindo para saber como é. algumas pessoas olham para mim com pena. acho que é, de certa forma, um alivio para eles. esse tipo de situação sempre nos mostra que estamos vivos e o quanto a vida é imprevisível e que seria melhor se a vivêssemos da melhor forma que conviesse.

quimio. o tratamento é muito chato, tanto tédio enquanto tomo os remédios. e eles só me trazem mais enjoos. a parte boa de ficar doente assim é que as pessoas são sempre legais com você. afinal, é esperado que você morra a qualquer hora, ninguém quer ficar com o peso de ter tratado um pobre moribundo mal nos últimos dias de vida.

se teve algum efeito a quimio? tirando os enjoos aumentados, nenhum. nem o cabelo caiu, acho que fizeram errado. quando eu era criança, sempre imaginei quimioterapia como umas ondas invisíveis que iam atrás só das partes ruim e as matavam, me decepcionei, remédio na veia. pena, acho que uma câmara com ondas seria muito mais bonito para um tratamento.

como a família está levando? pelo que eu percebo ainda estão em negação, todos falando que eu vou ficar bem e isso e aquilo, mas dá para ver a esperança da cura se esvaindo nos olhos deles a cada vez que aparecem por aqui. é, não estou mais em casa, dizer que fiz amizade com os enfermeiros é clichet, então não o direi, tenho fugido de padrões desde que meu cabelo não caiu, virou quase uma missão de vida.

confesso que dá um pouco de medo ter consciência que vou morrer em breve. uma semana, duas. um mês, dois. você começa a pensar, sabe? pelo menos eu penso sem parar no que vai acontecer quando eu morrer. se tem céu ou inferno, se tem algo, se é a ausência de tudo, se todas as coisas que dizem que existem realmente estão lá. vieram alguns padres aqui falar comigo, ver se eu queria um ombro, orientação espiritual ou qualquer coisa assim - deixei eles falarem, vale à pena fazer a vontade dos outros quando você vai morrer, assim eles ficam felizes achando que me deixaram com menos medo. mas ainda assim prefiro descobrir por minha própria experiência o que existe, se é que existe algo, do lado de lá.

não acho que eu vá durar dois dias, vi o guia da tv, não tem nada legal passando e amanhã é reprise de hoje, a internet me entediou de duas semanas para cá. resolvi escrever para passar o tempo, espero que a minha criatividade seja suficiente até eu morrer.

tem muitas flores aqui, já falei para economizarem e mandarem flores só no velório, não me ouvem. o que eu posso fazer? sei que cansei da sabatina de exames, cansei dos médicos com seus olhares piedosos, cansei das pessoas que eu conheço se sentindo na obrigação de estarem aqui.

eu acho que eu vou dispensar a todos para terminnnnnnnnnnnn

6 comentários:

Sabrine disse...

...

Sabrine disse...

cara, esse conto ta real demais pro meu gosto. deu frio na barriga.medinho.

saudades de vc, pode dar sinal de vc??
enfim, vai ter encontro...por favor, vai??

te amo mto!

BeijosS!

Praguejento disse...

hahahaha!
gostei.

começou tenso e terminou cômico.
realmente não esperava por um fim assim.

Ju disse...

Minha flor, não li ainda. Passei só pra dizer que estou morrendo de saudades da sua peçôa e que precisamos botar a conversa em dia.


Beijo e xêro no cangote.

Sabrine disse...

Jô...Parabéns Amore!!! hehehehehe...impossivel esquecer!!!
Felicidades!
Te amoO!

Sabrine disse...

Jô, troquei o nome do meu blog - http://sabrineworld.blogspot.com/
só pra tu saber!
te amo!