13.2.10

monólogos sobre a amizade

ela diz:
sabe, nós dois somos dois fodidos. é, você todo aí tentando reconciliar caso do passado e eu aqui assistindo comédia romântica. não sei como a gente terminou assim, mas somos perfeitos um para o outro. pena que somos incompatíveis e nós dois sabemos disso. somos os dois talentosos, claro que da nossa própria maneira. e, sendo um pouco mais atrevida, somos até bons partidos. você com essa barba por fazer te dando charme e esse aspecto obtuso e eu, tá, eu nem tenho muitos atributos, mas sou engraçadinha, pra dizer o mínimo.

eu já te disse o quanto eu gosto quando você tem sede de vida? ah, já disse sim, hoje de manhã. mas é legal, você muda totalmente, sai dessa nossa bad instaurada desde a nossa infância e, sabe, mesmo sem querer me dá esperança de sair também. é quase como fim de filme de comédia romântica, sempre acaba tudo bem apesar das intrigas e problemas do meio. menos o filme que eu assisti por último, nem acabou tudo bem. você é o meu fim de filme de comédia romântica quando acaba tudo bem. dá esperançazinha.

é, você me dá esperança, apesar de eu saber que você é tão fodido quanto eu. e as nossas conversas aleatórias? só com você que eu consigo conversar profundamente sobre os propósitos de distúrbios psicológicos e logo depois das propriedades do miojo, ambos casos com a mesma magnitude de pensamentos complexos e teorias complicadas que nunca poderiam ser aplicadas à realidade. você acha que isso é pra qualquer um? não, é só pra gente talentosa - diz-se talentosa pra não dizer que são pessoas problemáticas, ou com "probleminha" como eu sei que você gosta de dizer.

sabe uma das coisas que eu mais gosto em você mas que não teria nenhum problema em te ver sem? a sua amargura, você é mais amargo que o ciúme com um montão de café expresso jogado em cima. e eu gosto disso, porque eu sou tão amarga quanto você. mas eu nem ligaria de te ver feliz e ficar amarga sozinha no canto da festa que todo mundo se diverte menos eu. falando em festa, sabe o que é engraçado? eu nunca te vi bêbado de verdade. só de sono, e você bêbado de sono é realmente bem legal.

gosto muito também do jeito que você inventa vocabulários e jargões e bordões. gosto do jeito que você fala. e acho que te vi rindo de verdade mesmo só uma vez. naquela vez que a gente fez todo mundo parecer ridículo, você ria que dava até gosto de ver, tipo aquelas crianças deslumbradas que nunca viram escada rolante. foi a única vez, todas as outras você tava mais contido. mas mesmo assim eu sempre percebo o quanto você é mais feliz quando tá comigo. continuo no pensamento: pena que a gente é incompatível.

lembra daquela vez que... é, você sabe, eu esqueço das coisas. e você não se importa com isso, gente que me aceita sem memória é sempre gente que merece minha atenção. ah! lembra daquela vez que você esqueceu da gramatura do papel que você precisava comprar e me perguntou só por perguntar e eu disse qual era? naquele dia o mundo parou de girar por dois segundos, eu juro senti o mundo parando e ouvi aquele coro de querubins ao fundo - e choveu pra caralho naquele dia, acho que a culpa foi de eu ter lembrado.

eu gosto como você me empresta livros, até aqueles que você tá na metade mas tá enchendo o saco. aí eu leio, te falo que o livro é legal pra caramba e você volta a ler? e o jeito que a gente discute sobre música? gosto disso, ficamos trocando figurinhas sobre bandas desconhecidas que só a gente e mais meia dúzia no mundo conhece só porque é legal e o nosso gosto é melhor do que o do resto do mundo. tá, eu sei que você não concorda com o nosso gosto sendo melhor, mas eu acho, e o que eu acho é o que tá certo.

também é legal o jeito que a gente se conheceu. quem diria que nós viraríamos amigos? quem diria que nós teríamos tantas coisas em comum? eu não diria, nem você, eu sei. você mudou muito desde que me conheceu e eu nem tanto, só fiquei mais chata, mas isso não foi mérito seu. eu gosto de como você mente absurdamente tentando me enganar, ou quando mente só pra me fazer rir quando eu pergunto "quem vai?". eu nunca me canso da resposta dessa pergunta.

e eu gosto também o jeito que eu posso falar com você sobre qualquer coisa, mostrar meu ponto de vista de verdade de tudo e você não me julga por ele. eu gosto de quando você fala que eu sou bonita, por mais que eu realmente não acredite no que você diz e por mais que eu ache que é só compaixão pra não me ver mal porque a genética não foi legal comigo nessa parte. eu gosto como você gosta das coisas que eu faço e como você acha que eu sou foda em um monte de aspectos. sério, sua opinião conta muito pra mim.

já mencionei o quanto eu acho incrível que você esteja dando um rumo pra sua vida? você tem me ajudado a dar um rumo pra minha também. nossas resoluções nas manhãs de domingo são as melhores. e nem precisamos de ano novo pra achá-las. nós somos absolutamente incríveis. e fodidos. até a sua mãe gosta de mim! isso é inédito na minha vida. todas as mães geralmente me odeiam.

eu sei que com você eu sempre vou ter com quem rir dos infortúnios da vida, sempre vou ter quem me apóie não importa o quão insano um projeto seja, sempre vou ter alguém falando pra mim que vai funcionar, por mais que esteja na nossa cara que não vai. e eu te amo por isso, e por mais um monte de coisas também, mas aí ia ficar mais clichet e piegas do que nós dois conseguimos suportar, então nem vou mencionar.

ele diz:
Você se lembra qual foi a primeira visão que teve de mim? Eu me lembro a primeira que tive de você. Eu ali, parado na estação, encostado na pilastra e você caminhando em minha direção, de preto como sempre, trajando suas charmosas calças de pijama escocês. Você me olhou de cima a baixo, como se tirasse um raio-x do meu corpo e soltou a simples interjeição: "acho luxo", virou-se e começou a conversar com a garota que estava ao lado. Pensei: "que garota petulante!". O tempo passou e eu não imaginei como aquela garota petulante iria me conquistar e fazer de mim uma pessoa menos depressiva e mais expressiva. Gosto das conversas densas que temos, atravessando madrugadas, incontáveis cigarros divididos. Você sempre coca zero, eu sempre coca light. Nos completamos ainda que sejamos completamente incompletos. Crianças vazias e tristes que encontraram apoio em um semelhante qualquer. Lembra do dia que decidimos que este mundo seria pequeno para nós? Guardo a minha melhor lembrança do seu rosto daquele dia. Você estava mais sorridente e bonita do que de costume. Já te falei que a única garota que eu casaria seria você?

Um comentário:

Praguejento disse...

gente, quase me fez chorar, juro.