18.8.09

sabedoria popular

agraciado é aquele que depende do transporte público rodoviário paulistano! não, o transporte não é de extrema qualidade. não, a tarifa cobrada não condiz ao serviço oferecido. não, não tem conforto nem espaço suficiente. mas mesmo assim, agraciado é aquele que pode desfrutar de uma das mais intensas experiências que ocorrem em mega cidades. explicar-se-á o motivo de tanta graça para com os cidadãos paulistanos: quem não pega ônibus não passa pelas intensas experiências de medo, estresse, afobação, suspense, calor humano, paciência... e a lista se alonga infinitamente (com o perdão da hipérbole).

as pessoas que andam de carro não vivem o drama de saber se o último ônibus já saiu. é algo estonteante e digno de felicidade tremenda chegar ao ponto final e ver que ainda tem mais um ônibus para levar-lhe para o aconchego de seu tão querido lar. essa situação geralmente ocorre durante o começo das madrugadas, visto que os últimos ônibus partem entre 23:00 e duas da manhã. mas, se é sabido o horário do último ônibus, como ter expectativa de que ainda exista algum ativo para levá-lo? oras, lembre-se que falamos de são paulo, caro leitor, e nesta cidade nada é extamente como dizem que é. você pode chegar ao ponto e o ônibus já ter saído, isso mesmo, antes do horário. inconcebível? para quem mora nos grandes centros europeus talvez, aqui até achamos organizado e damos graças a deus pelo pouco de organização que se tem. e quando o último ônibus já saiu, como proceder? segundo um sábio dos transportes urbanos, se você está ferrado, pegue qualquer ônibus que possa deixá-lo o mais próximo possível de seu destino e cubra o resto do caminho à pé, às vezes pode-se até dar sorte de pegar outro ônibus no meio do caminho que lhe deixe mais perto de casa. perigoso? o que é da vida sem um pouco de perigo para sentir o sabor mais acentuado de estar vivo? encare o perigo como uma folha de louro no seu feijão, é até gostosinho sem, mas se colocam tudo fica mais saboroso.

se conseguir pegar o último ônibus o cidadão paulistano enfrenta o medo. mas medo por que, se ele já está dentro do coletivo? é devidamente lembrado que o último ônibus sai durante as primeiras horas da madrugada e nessas horas, nas grandes cidades, ninguém é de ninguém, ou melhor, nada é de ninguém, o seu celular, que é seu e você comprou com o seu suado dinheiro, pode não vir a ser mais seu antes que você tenha tido a chance de pedir ao amigo ladrão para dar-lhe o chip, o seu tocador de mídia pode não ser mais seu em questão de segundos e só perceber quando ouvir o barulho um tanto ensurdecedor do motor desregulado do veículo que lhe leva e trás todos os dias. expectativa, medo e drama, todos juntos. quando um homem entra no ônibus, passa por baixo da catraca e está de touca e boné, desista, você perdeu tudo, até os tênis. você jamais experienciaria tal tipo de situação sentado num cinema assistindo a um filme de suspense, imagine sentado no conforto do seu carro, com o ar condicionado ligado, as janelas fechadas e tocando no rádio sua música favorita. é melhor pegar ônibus, mais emocionante é, com certeza.

depois de passar por tais provações no começo da madrugada, quando nada de errado acontece e o contribuinte chega em casa aliviado e se sente agraciado por tanta sorte, é chegada a hora de dormir um pouco para enfrentar mais um dia de trabalho que começa na manhã seguinte. e lá vai o paulistano atravessar a cidade para chegar em seu local de trabalho - e é aqui que entra o calor humano. com os ônibus cheios de gente, é hora de provar que se sabe contorcionismo e tem a astúcia e o equilíbrio suficientes para não cair em cima de ninguém - uma vez que sair rolando corredor afora é algo inimaginável até mesmo para uma barata que está descansado ao alvorecer em seu ninho embaixo da última fileira de bancos. esse calor humano é algo que dá gosto de se ver, todos juntinhos, apertadinhos, se roçando freneticamente... tome cuidado com namoradas e namorados ciumentos, tanto calor humano junto pode ser considerado caso grave de adultério devido à quantidade de corpos amontoados se encostando. quando o tempo de calor humano é esgotado - com a duração mínima de meia hora - é hora de descer na sua parada, respirar o ar puro do centro da cidade e olhar para o relógio contente porque não está atrasado. é válido dizer que a mesma coisa acontece no fim do expediente, a única diferença é descer do ônibus contente porque vai conseguir assistir à novela naquele dia.

quem não anda de ônibus não pode perceber o gosto musical das pessoas, o coletivo vira praticamente uma discoteca com várias pistas de dança tamanho é o número de celulares tocando, no mais alto volume que o aparelho puder suportar, os mais variados tipos de música, mais variados com ressalvas, visto que ninguém jamais presenciou bach ou chopin tocando ao lado de funk. mas as combinações de funk, pagode, sertanejo, forró e todas essas vertentes populares estão com todas as forças disputando espaço com o barulho do motor e os outros sons que vem da rua. agora junte todos esses estilos musicais tocando simultaneamente, o calor humano, o perfume de fragrância praticamente animal que as pessoas exalam por seus poros e o calor proveniente do dia inteiro e você tem o estresse. quando chega a esse patamar é só alguém encostar um pedaço de corpo em outro pedaço de corpo não tão ortodoxo para começar um bate boca e, eventualmente, uma briga de verdade. e aí tem-se o show e entretenimento suficientes para chegar em casa de bom humor.

ah, o transporte metropolitano de são paulo! é tão bem equipado e condizente ao número de usuários que só uma coisa pode ser dita:

haja paciência!

3 comentários:

Sabrineeee GanchooO!! disse...

aushauhsuahasuhsauh....

verdade Jô, mas ultimamente eu ando somente de trem. iahsuahusah...se bem q no trem tb tem td isso q vc descreveu.
mas enfim sem transporte não somos ngm!!

cara, saudades.

amo-te!

Ju disse...

ahuuhauhauhahua fiquei imaginando vc com a sua altura toda num busão, nessas condições!

Haja paciência [2] e como! tá cada dia pior essa merda de condução.. e qnd rola funk ou pagodão no busão amigan, eu peço educadamente para desligar ou botar fones, se não for atendida, disputo o barulho tb, e vc sabe, barulho por barulho, o meu é mto maior (e melhor).

Dear, tenho fofoquinhas bobas pra te contar, qnd é que eu te vejo, guria ocupada?? saudades mor gigante absurda.

ich liebe dich =P

Edilson Marques disse...

Provavelmente já tocaram "pisadinha" numa de suas emocionantes viagens de busão. Post para inglês e carioca lerem! Obrigado por lembrar da baratinha, sempre presente, no fundo do busão. E eu já passei por baixo da catraca de boné e nunca assaltei ninguém, olha o preconceito, huahuahua!!! Beijos!

PS.: Pisadinha é um tipo de forró onde a "banda" sempre tem um "fulano dos teclados" e uma feiosa desafinada no vocal. Horrível.