perdi o tesão. anuncio um hiato sem previsão de volta.
beijos.
29.4.09
o que há de errado?
"o que eu tenho de errado?" se perguntava religiosamente ao fim de cada dia. o fato mais interessante é que ela tinha uma mania de perfeição que era irritante. ela sempre tentava tudo a seu máximo, quando não conseguia sempre se deprimia.
uma vez ela tentou amar. foi trocada por outra. não entendeu muito bem o que aconteceu, nem se ressentiu tanto. foi só um sentimento de ego ferido.
outra vez, ela tentou ser grande fazendo algo virtuoso. subiu até os céus e caiu de cara no chão quebrando dois dentes. isso foi um choque tremendo para seu ego. começou a pensar se ela realmente era tudo que ela achava que era. por ter conseguido realizar umas coisas fáceis, ela achou que conseguiria o resto. foi lá e tentou de novo. a nova tentativa resultou em uma perna quebrada e muita dor, além de umas risadas alheias de quem a viu tentando alçar vôo.
ela parou um pouco depois disso, férias, ela dizia. uns dois anos para se recuperar dos tombos não fariam mal a ninguém. durante esses dois anos ela tentou amar de novo, só para ver se seria capaz de se entregar a alguém novamente. descobriu que ainda não estava pronta e resolveu deixar a vida afetiva para depois e se entregou inteiramente ao trabalho e aos hobbies.
na tentativa da diversão ela chegou mais longe do que ela achou que chegaria. mas mesmo assim não foi suficiente para ela, largou tudo logo depois que viu que não levava muito jeito para a coisa, ela disse a todos que se cansou, mas era mentira e até ela se enganava com isso.
quando tentou ser a melhor no trabalho realmente o foi, só que caiu de cara na merda por confiar nas pessoas erradas. logo após esse episódio resolveu mudar de vida, ser uma boa pessoa e tentar fazer a vida de todos melhor.
foi quando conseguiu amar de novo. se sentiu solene, quase completa, tudo passou a fazer mais sentido e a vida ficou mais colorida. achou que seu deus a recompensava pela mudança de vida. ficou feliz pela primeira vez desde que se lembrava. não deu certo. perdeu duas pernas, dois braços, um rim e totalmente a vontade de viver.
ficou alguns meses de molho, sem nenhuma ambição ou expectativa. agora ela está a tentar de novo, perseguindo um sonho e pensando em mudar totalmente de vida. mas internamente ela já sabe que no fim vai ser como todo o resto. e jamais se cansaria de perguntar para seu deus: "o que há de errado comigo?"
não tinha nada de errado com ela, na verdade. ela que sempre queria mais do que ela podia conseguir e ainda não aprendeu a viver com isso.
uma vez ela tentou amar. foi trocada por outra. não entendeu muito bem o que aconteceu, nem se ressentiu tanto. foi só um sentimento de ego ferido.
outra vez, ela tentou ser grande fazendo algo virtuoso. subiu até os céus e caiu de cara no chão quebrando dois dentes. isso foi um choque tremendo para seu ego. começou a pensar se ela realmente era tudo que ela achava que era. por ter conseguido realizar umas coisas fáceis, ela achou que conseguiria o resto. foi lá e tentou de novo. a nova tentativa resultou em uma perna quebrada e muita dor, além de umas risadas alheias de quem a viu tentando alçar vôo.
ela parou um pouco depois disso, férias, ela dizia. uns dois anos para se recuperar dos tombos não fariam mal a ninguém. durante esses dois anos ela tentou amar de novo, só para ver se seria capaz de se entregar a alguém novamente. descobriu que ainda não estava pronta e resolveu deixar a vida afetiva para depois e se entregou inteiramente ao trabalho e aos hobbies.
na tentativa da diversão ela chegou mais longe do que ela achou que chegaria. mas mesmo assim não foi suficiente para ela, largou tudo logo depois que viu que não levava muito jeito para a coisa, ela disse a todos que se cansou, mas era mentira e até ela se enganava com isso.
quando tentou ser a melhor no trabalho realmente o foi, só que caiu de cara na merda por confiar nas pessoas erradas. logo após esse episódio resolveu mudar de vida, ser uma boa pessoa e tentar fazer a vida de todos melhor.
foi quando conseguiu amar de novo. se sentiu solene, quase completa, tudo passou a fazer mais sentido e a vida ficou mais colorida. achou que seu deus a recompensava pela mudança de vida. ficou feliz pela primeira vez desde que se lembrava. não deu certo. perdeu duas pernas, dois braços, um rim e totalmente a vontade de viver.
ficou alguns meses de molho, sem nenhuma ambição ou expectativa. agora ela está a tentar de novo, perseguindo um sonho e pensando em mudar totalmente de vida. mas internamente ela já sabe que no fim vai ser como todo o resto. e jamais se cansaria de perguntar para seu deus: "o que há de errado comigo?"
não tinha nada de errado com ela, na verdade. ela que sempre queria mais do que ela podia conseguir e ainda não aprendeu a viver com isso.
coisas:
contos
27.4.09
cretinice alheia
Poste uma foto sua com alguém especial ou uma foto comprometedora!
sem foto.
Amaldiçoar 4 pessoas:
sem maldição
Avisar aos amaldiçoados sobre a maldição.
não
Cada pessoa amaldiçoada deve dizer 10 coisas aleatórias sobre si:
1. vou-me embora para pasárgada, lá sou amiga da rainha.
2. nunca paro de fazer cagada.
3. se o mundo acabasse hoje não me importaria nem um pouco.
4. não uso letras maiúsculas.
5. acabei de fazer cocô.
6. to lendo paulo coelho.
7. jamais falarei que o enredo é até interessante.
8. meu ego sumiu.
9. to começando a ficar com queimação porque compulsei e comi três coxinhas.
10. não tenho dinheiro nem pra comer.
Nome: cowy
Que dia é hoje?
olha alí em baixo, no fim do post.
Que horas são?
19:54 p.m. (HAHA FRUTA!)
Quantidade de velas no seu último bolo de aniversário.
não teve bolo, quiçá velas.
Furos nas orelhas?
sim.
Tatuagens?
sim.
Piercings?
sim.
Já foi à África?
sim.
Já ficou bêbado?
jamais. também não minto.
Já chorou por alguém?
Sim.
Já esteve envolvido em algum acidente de carro?
Sim.
Música Preferida?
coughing colors, tilly and the wall
Cerveja ou Champagne?
vodka
Metade, cheio ou vazio?
tá na metade.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
tanto faz.
Filme preferido?
teu pai dando o cu.
Coca–Cola simples ou com gelo?
sem calorias e muito sódio.
Quem dos teus amigos vive mais longe?
em alguns meses, praticamente todos.
Melhor amigo(a)?
minha mão direita. (if you know what i mean.)
Quantas vezes você deixa tocar o telefone antes de atender?
todas, geralmente não atendo.
Qual a figura do seu mouse pad?
não uso mouse.
CD preferido?
nem tenho.
Mulher bonita?
as que não dão bola pra mim costumam me atrair um bocado.
Pior sentimento do mundo?
indiferença.
Melhor sentimento do mundo?
aquele que dá logo que você começa a fazer xixi depois de muito tempo segurando.
O que uma pessoa não pode ser para ficar com você?
homem. (HAHAHA)
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
que merda, não morri.
O que eu faço agora?
você? não faço idéia.
Se pudesse ser outra pessoa, quem seria?
a gretchen ou a filha fancha dela.
Algo que você nunca tiraria de você?
minha mão direita.
O que é que você tem debaixo da cama?
corpos mutilados e um pau laranja de borracha.
Qual a sua banda preferida? Quantos shows dela você já assistiu?
sleater-kinney, nenhum.
Quem é o seu autor favorito? Quantos livros dele você já leu?
machado de assis e douglas adams. zilhões.
Uma frase?
se ninguém deixa você fazer alguma coisa, mande a merda e faça mesmo assim.
por mim mesma
Qual livro você está lendo?
vergonha de falar que é paulo coelho. mas é pra fins científicos.
Uma saudade?
o passado é passado, não sinto falta.
Uma característica?
não depilo as pernas com frequência.
Quem acha que vai responder mais rápido?
o aluno mais esperto.
Acredita em vida extraterrestre?
meu melhor amigo é um et.
Chão ou parede?
os dois.
Som alto ou música ambiente?
fones de ouvido, separando você da mediocridade ao seu redor.
Quantas pessoas já beijou?
HAHA, não faço a mínima idéia.
E quantas(o) amou?
nunca amei ninguém. amei as coisas que as pessoas me proporcionaram, não as pessoas.
O que anda ouvindo?
um monte de coisa, sabe, não sou surda.
O que anda comendo?
ninguém.
Ritmo, cor, fruta e bebida:
baião, transparente, FRUTA! prefiro "guloseimas", vodka.
Lugar, época e saudade:
cama, alguns meses atrás, orgasmo.
Com quantos anos você aprendeu a viver?
com todos.
-----
só porque era pra você, ju.
sem foto.
Amaldiçoar 4 pessoas:
sem maldição
Avisar aos amaldiçoados sobre a maldição.
não
Cada pessoa amaldiçoada deve dizer 10 coisas aleatórias sobre si:
1. vou-me embora para pasárgada, lá sou amiga da rainha.
2. nunca paro de fazer cagada.
3. se o mundo acabasse hoje não me importaria nem um pouco.
4. não uso letras maiúsculas.
5. acabei de fazer cocô.
6. to lendo paulo coelho.
7. jamais falarei que o enredo é até interessante.
8. meu ego sumiu.
9. to começando a ficar com queimação porque compulsei e comi três coxinhas.
10. não tenho dinheiro nem pra comer.
Nome: cowy
Que dia é hoje?
olha alí em baixo, no fim do post.
Que horas são?
19:54 p.m. (HAHA FRUTA!)
Quantidade de velas no seu último bolo de aniversário.
não teve bolo, quiçá velas.
Furos nas orelhas?
sim.
Tatuagens?
sim.
Piercings?
sim.
Já foi à África?
sim.
Já ficou bêbado?
jamais. também não minto.
Já chorou por alguém?
Sim.
Já esteve envolvido em algum acidente de carro?
Sim.
Música Preferida?
coughing colors, tilly and the wall
Cerveja ou Champagne?
vodka
Metade, cheio ou vazio?
tá na metade.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
tanto faz.
Filme preferido?
teu pai dando o cu.
Coca–Cola simples ou com gelo?
sem calorias e muito sódio.
Quem dos teus amigos vive mais longe?
em alguns meses, praticamente todos.
Melhor amigo(a)?
minha mão direita. (if you know what i mean.)
Quantas vezes você deixa tocar o telefone antes de atender?
todas, geralmente não atendo.
Qual a figura do seu mouse pad?
não uso mouse.
CD preferido?
nem tenho.
Mulher bonita?
as que não dão bola pra mim costumam me atrair um bocado.
Pior sentimento do mundo?
indiferença.
Melhor sentimento do mundo?
aquele que dá logo que você começa a fazer xixi depois de muito tempo segurando.
O que uma pessoa não pode ser para ficar com você?
homem. (HAHAHA)
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
que merda, não morri.
O que eu faço agora?
você? não faço idéia.
Se pudesse ser outra pessoa, quem seria?
a gretchen ou a filha fancha dela.
Algo que você nunca tiraria de você?
minha mão direita.
O que é que você tem debaixo da cama?
corpos mutilados e um pau laranja de borracha.
Qual a sua banda preferida? Quantos shows dela você já assistiu?
sleater-kinney, nenhum.
Quem é o seu autor favorito? Quantos livros dele você já leu?
machado de assis e douglas adams. zilhões.
Uma frase?
se ninguém deixa você fazer alguma coisa, mande a merda e faça mesmo assim.
por mim mesma
Qual livro você está lendo?
vergonha de falar que é paulo coelho. mas é pra fins científicos.
Uma saudade?
o passado é passado, não sinto falta.
Uma característica?
não depilo as pernas com frequência.
Quem acha que vai responder mais rápido?
o aluno mais esperto.
Acredita em vida extraterrestre?
meu melhor amigo é um et.
Chão ou parede?
os dois.
Som alto ou música ambiente?
fones de ouvido, separando você da mediocridade ao seu redor.
Quantas pessoas já beijou?
HAHA, não faço a mínima idéia.
E quantas(o) amou?
nunca amei ninguém. amei as coisas que as pessoas me proporcionaram, não as pessoas.
O que anda ouvindo?
um monte de coisa, sabe, não sou surda.
O que anda comendo?
ninguém.
Ritmo, cor, fruta e bebida:
baião, transparente, FRUTA! prefiro "guloseimas", vodka.
Lugar, época e saudade:
cama, alguns meses atrás, orgasmo.
Com quantos anos você aprendeu a viver?
com todos.
-----
só porque era pra você, ju.
coisas:
insanidades
25.4.09
dilmarx, edilson marques, um punhado de pixels no seu computador
venho por meio deste declarar publicamente que não tenho vergonha do sr. edilson marques, que conheci em 2002, sabe de vários fatos envergonhantes da minha pessoa, tem fotos minhas que nem eu tenho, é chato pra caralho, tem um blog legal alí do lado, me influenciou diretamente a começar este blog.
tá feliz agora? chatão.
tá feliz agora? chatão.
coisas:
insanidades
24.4.09
ao vencedor, às batatas
o mundo jamais voltará a ser o que era. o mundo não parou nem se importou, ninguém se importou na verdade. para você tanto faz, não é a sua vida mesmo, não chegou nem perto de ser sua vida. desde a infância vi um a um de quem eu gostava ser arrancado sem dó nem piedade do meu convívio próximo. o que acontecia com eles nunca soube, não sei se eles tiveram o mesmo destino fatídico que o meu, e acho que jamais saberei. só digo que a vida sempre foi muito injusta comigo.
nasci em uma família bem estruturada, tinha pais, irmãos mais velhos e irmãos mais novos. minha infância foi muito bem aproveitada, rolava pela terra com meus irmãos e primos, nunca fui à escola, nós não tínhamos esses luxos, aprendíamos mesmo na escola da vida: o que fazer, como fazer, como nos alimentar de forma correta para que crescêssemos e fossemos saudáveis, a vida nos ensinou tudo. fui crescendo como todos ao meu redor, éramos jovens, confiantes e até mesmo felizes.
na adolescência me apaixonei perdidamente, mais de uma vez. e todas eram minha cara metade, a outra metade da laranja, a alma gêmea, sem exceções. logo depois da primeira desilusão amorosa comecei a trabalhar, é necessário sair debaixo da saia da mãe e começar a fazer algo pela sua própria vida. se eu soubesse que aqueles seriam meus anos áureos teria aproveitado mais, mas a gente nunca sabe que estava por cima até estar por baixo. foi mais ou menos nessa época que meus pais e meus irmãos mais velhos sumiram e jamais voltaram. a última coisa que ouvi da minha mãe foi um até amanhã corriqueiro de quem se despede ao ir dormir. não preciso dizer que jamais soube do paradeiro deles.
trabalhei, trabalhei, trabalhei, fiz tudo o que eu deveria fazer para manter a casa e uma vida digna para meus irmãos mais jovens, me divertia um pouco, encontrei mais algumas almas gêmeas e hoje eu vejo como meus pais se encontraram e formaram uma família cedo, eu jamais teria esse destino. minhas alma gêmeas nunca vingaram, talvez tenha sido porque jamais fui capaz de gerar uma prole, jamais saberei e hoje isso não importa mais.
não sei como funciona onde você vive, mas onde eu vivi todos tinham que se alistar ao exército. homens, mulheres, crianças... e nós éramos chamados para o serviço só quando estávamos na nossa melhor forma. o jeito que me chamaram, que eu assumi como padrão porque só isso explicaria muita coisa na minha vida, foi totalmente inesperado. uma noite, logo após que havia colocado meus irmãos para dormir, bateram à minha porta. atendi, dois indivíduos mostraram documentos e falaram a frase que mudou minha vida: "precisamos de você.", quando eu tentei falar que precisava avisar meus irmãos sobre o chamado do poder superior simplesmente disseram que não havia tempo, e me arrastaram de lá, no meio da madrugada, sem que eu ao menos pudesse dizer aos meus irmãos o que estava acontecendo.
aí começou a viagem mais estranha da minha vida inteira. me encontrei em um universo paralelo muito estranho, não que fosse realmente um universo paralelo, mas era como se fosse. primeiro, logo depois que vieram me buscar à minha porta, me deparei com um mundo muito claro, diferente de tudo que eu já tinha visto durante minha existência. depois, me levaram a uma espécie de transporte, não sei definir exatamente o que era, mas eu nunca vi algo do tipo antes, era retangular, não tinha muita luz, mas mesmo assim já era mais claridade do que o que havia me acostumado, não sei descrever mais, não tenho muitos parâmetros para comparar esse meio de transporte, mas posso dizer que era muito estranho para os meus padrões comuns. havia muitos outros no mesmo transporte, ficávamos meio empilhados, uns por cima dos outros. ao olhar por uma fenda, vi muitos outros daqueles transportes totalmente cheios. naquela hora eu percebi que a guerra que iríamos enfrentar era enorme.
quando chegamos ao nosso destino, fomos todos jogados numa espécie de esteira, que nos levava diretamente a um chuveiro, que me pareceu que serviria para nos descontaminar de qualquer praga que poderíamos ter. a visão do chuveiro me assustou como nada antes na minha vida já havia feito, tentei gritar para os outros, dizendo que estávamos na mão do inimigo e todos os outros pareciam que partilhavam da mesma opinião que a minha. tentei pensar em um jeito para que nos uníssemos e conseguíssemos escapar, mas não tínhamos como fugir, tudo foi previamente arrumado para que nenhum de nós conseguisse escapar.
quando me dei por mim, o chuveiro estava muito próximo e gotas daquele veneno já tinham começado a espirrar em mim, tudo que poderia fazer era prender minha respiração para postergar o máximo possível minha existência. passei pelo chuveiro e quando percebi, já estava em um lugar muito esquisito, havia coisas sendo passadas em mim, aquilo era muito estranho mesmo, jamais havia passado por uma situação assim, eram como fibras sendo esfregadas contra meu corpo, assumi que era para ajudar a descontaminação ou para que o veneno penetrasse mais ainda em mim, uma vez que o líquido voltou a ser espirrado, mas com mais violência.
foi tudo tão rápido, que quando reparei, tudo já havia acabado e estávamos todos jogados em um canto qualquer esperando que o veneno surtisse efeito. nessa hora eu parei de tentar qualquer tipo de comunicação com meus superiores ou raptores e com os outros que estavam na mesma situação que a minha, percebi que nada que eu fizesse poderia surtir qualquer efeito. uma coisa que aprendi com meu pai: se não há nada que possa ser feito, não faça nada, você estará se ajudando mais do que se tentasse fazer algo. e assim fiquei lá, olhando ao meu redor e tentando entender aquele lugar estranho. se eu soubesse que ia passar por isso, teria avisado meus irmãos para fugirem ou jamais abrirem a porta no meio da madrugada.
depois de um longo tempo que estávamos parados, sem ter nada sendo feito conosco, resolveram nos pegar e nos colocar novamente em um meio de transporte parecido com o que nos havia trazido até lá, mas esse meio de transporte parecia ser mais maleável, menos incômodo. suponho que eles tenham feito isso porque o veneno não surtiu muito efeito em ninguém, só estávamos irreconhecíveis, mas, tirando isso, não havia qualquer outro efeito aparente. ficamos naquele meio de transporte por muito tempo, dias, semanas, não sei contabilizar, só sei que naquela altura eu já parecia alguém que nunca poderia ter levado o tipo de vida que eu costumava levar.
quando aparentemente chegamos ao nosso destino, nos mudaram de meio de transporte novamente, nunca entendi essa obsessão por meios de transporte que parecia haver. esse era retangular, mas tinha muito mais fendas que o primeiro. como eu consegui ficar em um lugar em que tinha uma boa visão do exterior pude olhar para um pedaço do meu entorno. era um lugar estranho, havia muitas raças diferentes naquela guerra, todas ordenadas graciosamente em batalhões de iguais. quando percebi como os batalhões estavam dispostos, consegui entender que eu também estaria em um batalhão similar, junto dos meus. e foi exatamente o que aconteceu. quando menos esperávamos fomos dispostos num batalhão somente nosso. quando vislumbrei o tamanho e a quantidade de batalhões fiquei com mais medo ainda. pela quantidade de combatentes, a guerra iria ser a maior do mundo.
fiquei esperando por muito tempo para entrar na batalha. nenhuma ordem ou palavra foi dirigida a mim desde a hora que bateram à minha porta de madrugada. nunca soube o que fazer, mas estava lá, com a maior sensação de insegurança que já tinha sentido, com medo e pensando se o mesmo havia acontecido com os outros que haviam sumido do meu convívio. até que um dia, escolheram a mim e mais uns cinco, nos colocaram em outro meio de transporte. naquela altura já havia perdido medo desses transportes estranhos e aceitei minha condição sem dizer palavra alguma.
quando meus companheiros e eu chegamos ao local da batalha, estranhamente fomos colocados em um lugar bem exposto por um tempo considerável, o lugar era estranho, havia pouquíssimos combatentes de pouquíssimas raças. ficamos lá, olhando o movimento até que o pior aconteceu.
pegaram-me e começaram a tirar toda minha pele. eu desmaiei de dor e sofrimento logo no início, e, incrivelmente, logo depois disso passei a ter essa consciência com a qual eu conto minha história, só que passei a ver tudo que acontecia como quem observa algo de fora. só sei que agradeci por ter perdido a consciência logo no começo, o que viria depois seria pior ainda, logo depois toda minha pele havia sido tirada, meu corpo inerte foi atirado em uma espécie de substância borbulhante. a mesma ação foi repetida com todos meus pobres companheiros de exército. depois de ter nos deixado lá por um tempo que me pareceu interminável, nos pegaram um a um a esmo e nos amassaram alucinadamente até que todas as nossas entranhas estivessem bem homogêneas e misturadas umas nas outras, de forma que jamais seria possível reconhecer qualquer um de nós separadamente, apesar de eu não ter parado de prestar atenção a um último pedaço de mim, conseguindo me localizar naquele amassado de corpos. adicionaram mais algumas coisas à grande massa que formávamos e misturaram muito bem para que tudo fosse incorporado e que ninguém fosse capaz de distinguir coisa qualquer.
no fim, só sei que começou uma discussão qualquer provinda de quem havia nos torturado daquela maneira. tendo a visão de fora, fui capaz de distinguir quatro primatas, dois pareciam ser mais experientes, dois mais jovens. o último pedaço que restava de mim que ainda era capaz de reconhecer foi parar em um aparato o qual o menor primata utilizava para levar o que havia em sua frente para uma reentrância que havia em o que eu julguei ser seu rosto. a essa altura da discussão o resto de mim acabou voando ao rosto do outro primata menor. eu diria que minha existência foi um tanto vã, já que a última coisa que tenho consciência de ter acontecido comigo foi ter voado ao rosto de alguém na forma de um simplório purê de batatas.
nasci em uma família bem estruturada, tinha pais, irmãos mais velhos e irmãos mais novos. minha infância foi muito bem aproveitada, rolava pela terra com meus irmãos e primos, nunca fui à escola, nós não tínhamos esses luxos, aprendíamos mesmo na escola da vida: o que fazer, como fazer, como nos alimentar de forma correta para que crescêssemos e fossemos saudáveis, a vida nos ensinou tudo. fui crescendo como todos ao meu redor, éramos jovens, confiantes e até mesmo felizes.
na adolescência me apaixonei perdidamente, mais de uma vez. e todas eram minha cara metade, a outra metade da laranja, a alma gêmea, sem exceções. logo depois da primeira desilusão amorosa comecei a trabalhar, é necessário sair debaixo da saia da mãe e começar a fazer algo pela sua própria vida. se eu soubesse que aqueles seriam meus anos áureos teria aproveitado mais, mas a gente nunca sabe que estava por cima até estar por baixo. foi mais ou menos nessa época que meus pais e meus irmãos mais velhos sumiram e jamais voltaram. a última coisa que ouvi da minha mãe foi um até amanhã corriqueiro de quem se despede ao ir dormir. não preciso dizer que jamais soube do paradeiro deles.
trabalhei, trabalhei, trabalhei, fiz tudo o que eu deveria fazer para manter a casa e uma vida digna para meus irmãos mais jovens, me divertia um pouco, encontrei mais algumas almas gêmeas e hoje eu vejo como meus pais se encontraram e formaram uma família cedo, eu jamais teria esse destino. minhas alma gêmeas nunca vingaram, talvez tenha sido porque jamais fui capaz de gerar uma prole, jamais saberei e hoje isso não importa mais.
não sei como funciona onde você vive, mas onde eu vivi todos tinham que se alistar ao exército. homens, mulheres, crianças... e nós éramos chamados para o serviço só quando estávamos na nossa melhor forma. o jeito que me chamaram, que eu assumi como padrão porque só isso explicaria muita coisa na minha vida, foi totalmente inesperado. uma noite, logo após que havia colocado meus irmãos para dormir, bateram à minha porta. atendi, dois indivíduos mostraram documentos e falaram a frase que mudou minha vida: "precisamos de você.", quando eu tentei falar que precisava avisar meus irmãos sobre o chamado do poder superior simplesmente disseram que não havia tempo, e me arrastaram de lá, no meio da madrugada, sem que eu ao menos pudesse dizer aos meus irmãos o que estava acontecendo.
aí começou a viagem mais estranha da minha vida inteira. me encontrei em um universo paralelo muito estranho, não que fosse realmente um universo paralelo, mas era como se fosse. primeiro, logo depois que vieram me buscar à minha porta, me deparei com um mundo muito claro, diferente de tudo que eu já tinha visto durante minha existência. depois, me levaram a uma espécie de transporte, não sei definir exatamente o que era, mas eu nunca vi algo do tipo antes, era retangular, não tinha muita luz, mas mesmo assim já era mais claridade do que o que havia me acostumado, não sei descrever mais, não tenho muitos parâmetros para comparar esse meio de transporte, mas posso dizer que era muito estranho para os meus padrões comuns. havia muitos outros no mesmo transporte, ficávamos meio empilhados, uns por cima dos outros. ao olhar por uma fenda, vi muitos outros daqueles transportes totalmente cheios. naquela hora eu percebi que a guerra que iríamos enfrentar era enorme.
quando chegamos ao nosso destino, fomos todos jogados numa espécie de esteira, que nos levava diretamente a um chuveiro, que me pareceu que serviria para nos descontaminar de qualquer praga que poderíamos ter. a visão do chuveiro me assustou como nada antes na minha vida já havia feito, tentei gritar para os outros, dizendo que estávamos na mão do inimigo e todos os outros pareciam que partilhavam da mesma opinião que a minha. tentei pensar em um jeito para que nos uníssemos e conseguíssemos escapar, mas não tínhamos como fugir, tudo foi previamente arrumado para que nenhum de nós conseguisse escapar.
quando me dei por mim, o chuveiro estava muito próximo e gotas daquele veneno já tinham começado a espirrar em mim, tudo que poderia fazer era prender minha respiração para postergar o máximo possível minha existência. passei pelo chuveiro e quando percebi, já estava em um lugar muito esquisito, havia coisas sendo passadas em mim, aquilo era muito estranho mesmo, jamais havia passado por uma situação assim, eram como fibras sendo esfregadas contra meu corpo, assumi que era para ajudar a descontaminação ou para que o veneno penetrasse mais ainda em mim, uma vez que o líquido voltou a ser espirrado, mas com mais violência.
foi tudo tão rápido, que quando reparei, tudo já havia acabado e estávamos todos jogados em um canto qualquer esperando que o veneno surtisse efeito. nessa hora eu parei de tentar qualquer tipo de comunicação com meus superiores ou raptores e com os outros que estavam na mesma situação que a minha, percebi que nada que eu fizesse poderia surtir qualquer efeito. uma coisa que aprendi com meu pai: se não há nada que possa ser feito, não faça nada, você estará se ajudando mais do que se tentasse fazer algo. e assim fiquei lá, olhando ao meu redor e tentando entender aquele lugar estranho. se eu soubesse que ia passar por isso, teria avisado meus irmãos para fugirem ou jamais abrirem a porta no meio da madrugada.
depois de um longo tempo que estávamos parados, sem ter nada sendo feito conosco, resolveram nos pegar e nos colocar novamente em um meio de transporte parecido com o que nos havia trazido até lá, mas esse meio de transporte parecia ser mais maleável, menos incômodo. suponho que eles tenham feito isso porque o veneno não surtiu muito efeito em ninguém, só estávamos irreconhecíveis, mas, tirando isso, não havia qualquer outro efeito aparente. ficamos naquele meio de transporte por muito tempo, dias, semanas, não sei contabilizar, só sei que naquela altura eu já parecia alguém que nunca poderia ter levado o tipo de vida que eu costumava levar.
quando aparentemente chegamos ao nosso destino, nos mudaram de meio de transporte novamente, nunca entendi essa obsessão por meios de transporte que parecia haver. esse era retangular, mas tinha muito mais fendas que o primeiro. como eu consegui ficar em um lugar em que tinha uma boa visão do exterior pude olhar para um pedaço do meu entorno. era um lugar estranho, havia muitas raças diferentes naquela guerra, todas ordenadas graciosamente em batalhões de iguais. quando percebi como os batalhões estavam dispostos, consegui entender que eu também estaria em um batalhão similar, junto dos meus. e foi exatamente o que aconteceu. quando menos esperávamos fomos dispostos num batalhão somente nosso. quando vislumbrei o tamanho e a quantidade de batalhões fiquei com mais medo ainda. pela quantidade de combatentes, a guerra iria ser a maior do mundo.
fiquei esperando por muito tempo para entrar na batalha. nenhuma ordem ou palavra foi dirigida a mim desde a hora que bateram à minha porta de madrugada. nunca soube o que fazer, mas estava lá, com a maior sensação de insegurança que já tinha sentido, com medo e pensando se o mesmo havia acontecido com os outros que haviam sumido do meu convívio. até que um dia, escolheram a mim e mais uns cinco, nos colocaram em outro meio de transporte. naquela altura já havia perdido medo desses transportes estranhos e aceitei minha condição sem dizer palavra alguma.
quando meus companheiros e eu chegamos ao local da batalha, estranhamente fomos colocados em um lugar bem exposto por um tempo considerável, o lugar era estranho, havia pouquíssimos combatentes de pouquíssimas raças. ficamos lá, olhando o movimento até que o pior aconteceu.
pegaram-me e começaram a tirar toda minha pele. eu desmaiei de dor e sofrimento logo no início, e, incrivelmente, logo depois disso passei a ter essa consciência com a qual eu conto minha história, só que passei a ver tudo que acontecia como quem observa algo de fora. só sei que agradeci por ter perdido a consciência logo no começo, o que viria depois seria pior ainda, logo depois toda minha pele havia sido tirada, meu corpo inerte foi atirado em uma espécie de substância borbulhante. a mesma ação foi repetida com todos meus pobres companheiros de exército. depois de ter nos deixado lá por um tempo que me pareceu interminável, nos pegaram um a um a esmo e nos amassaram alucinadamente até que todas as nossas entranhas estivessem bem homogêneas e misturadas umas nas outras, de forma que jamais seria possível reconhecer qualquer um de nós separadamente, apesar de eu não ter parado de prestar atenção a um último pedaço de mim, conseguindo me localizar naquele amassado de corpos. adicionaram mais algumas coisas à grande massa que formávamos e misturaram muito bem para que tudo fosse incorporado e que ninguém fosse capaz de distinguir coisa qualquer.
no fim, só sei que começou uma discussão qualquer provinda de quem havia nos torturado daquela maneira. tendo a visão de fora, fui capaz de distinguir quatro primatas, dois pareciam ser mais experientes, dois mais jovens. o último pedaço que restava de mim que ainda era capaz de reconhecer foi parar em um aparato o qual o menor primata utilizava para levar o que havia em sua frente para uma reentrância que havia em o que eu julguei ser seu rosto. a essa altura da discussão o resto de mim acabou voando ao rosto do outro primata menor. eu diria que minha existência foi um tanto vã, já que a última coisa que tenho consciência de ter acontecido comigo foi ter voado ao rosto de alguém na forma de um simplório purê de batatas.
coisas:
contos
22.4.09
jorge pereira
[jorge pereira, quarenta-e-sete anos, contador. jorge costuma ser chamado de pereira na empresa em que trabalha e nos jogos de futebol aos fins de semana com os colegas de trabalho. ostenta um volumoso bigode castanho que contrasta poéticamente com sua careca brilhante. usa regatas brancas encardidas por baixo de suas roupas e as usa de pijama. jorge é divorciado, não tem filhos e é impotente. há alguns anos não consegue enxergar sua genitália ao olhar para baixo por causa da voluptuosa barriga que lhe confere um aspecto de pêra.]
jorge não tem muitos amigos, é um tanto sozinho. sua ex-esposa não deixou nem que ele ficasse com os peixes beta que eles mantinham como animais de estimação porque ela acreditava que ele não seria capaz de alimentá-los com a frequência exata. jorge não tinha com quem conversar, ninguém lhe dá a atenção que necessita, então passa muito tempo lendo e se informando, os livros lhe fazem companhia. jorge é muito culto, entende de literatura, filosofia e arte; usa desse conhecimento para impressionar menininhas pela internet.
o passa-tempo predileto de jorge é criar falsos usuários em sites de relacionamento e, assim, seduzir meninas que gostam de coisas culturais e que são inteligentes. mas ele nunca dá a entender que ele as está seduzindo, as envolve de tal forma que quando percebem elas já estão perdidamente apaixonadas por jorge e mostram-no seus sexos pela webcam. este é o ápice de seu divertimento, já que não consegue nem ao menos se masturbar enquanto vislumbra as imagens. jorge tem vivido assim por longos anos.
um dia, contudo, jorge começou a seduzir a menina mais interessante e inteligente que já conversara em sua longa jornada pela rede. a menina se chamava maria eduarda.
[maria eduarda, apelido duda, quarenta-e-nove anos, pensionista, com rugas e marcas de expressão. maria eduarda tem vários cabelos brancos que tenta esconder com tinta vermelha barata para cabelos e fica por um tempo considerável com as raízes aparentes, o que confere a seu cabelo um aspecto tricolor entre vermelho, preto e branco. ela é solitária como jorge, passa seu tempo livre em sites de relacionamentos e de encontros para pessoas maduras. maria eduarda também é aficionada por leitura e música boa. usa óculos e umas roupas florais esvoaçantes. decidiu usar o apelido de duda porque achou que lhe conferia um ar jovial e procura sempre estar antenada nas tendências das pessoas novas.]
jorge e maria eduarda se conheceram por meio de um site de relacionamento que tratava principalmente de música. começaram a conversar por longas horas. maria eduarda tinha certeza que jorge não era o que dizia ser, jorge sabia que maria eduarda não tinha vinte-e-três anos. conversavam sobre música, literatura e muitas coisas do aspecto mundano dos jovens, a diferença era a profundidade da conversa, os dois tinham opiniões muito bem formuladas e interiorizadas que pessoas com menos de quarenta não são capazes de demonstrar com tanta naturalidade.
jorge tentava usar os mesmos meios que usava com as outras meninas para ludibriar maria eduarda: falar que não tem fotos no computador que ele está, não disponibilizar webcam, usar algumas propriedades gráficas típicas de adolescente; mas maria eduarda já conhecia cada uma daquelas técnicas. maria eduarda tentava enrolar jorge como ela fazia com todas as outras pessoas, mas jorge também conhecia aquelas técnicas como a palma de sua mão. um desconfiava ensandecidamente do outro, mas se recusavam a demonstrar com medo de serem desmascarados, apesar disso, os dois eram extremamente inteligentes, tinham apreços muito similares e começaram a se interessar um pelo outro.
maria eduarda, que era um tanto mais aventureira que jorge, decidiu se declarar e contar a verdade sobre duda. jorge, vendo que havia conseguido seduzir uma mulher interessantíssima como maria eduarda, decidiu contar toda a verdade para ela, incluindo seu problema de impotência. maria eduarda ficou feliz ao conhecer o verdadeiro jorge, jorge ficou aliviado por ter sido aceito.
marcaram um encontro, foram assistir a um filme de arte, depois a um lounge ouvir jazz e conversar. maria eduarda estava na sua melhor forma, vestia sua melhor roupa floral e estava com um chamativo batom vermelho nos lábios. jorge estava nervoso, usava uma camisa azul claro que denotava o suor em suas axilas e sua barriga tentando fugir das calças, calças pretas e sapatos marrons, assim como as meias.
o encontro foi um sucesso, os dois conversaram muito, apreciaram a música e o filme, mas o relacionamento não foi pra frente. maria eduarda estava disposta a tentar acabar com a impotência de jorge, mas jorge descobriu que não sentia mais afeição por pessoas de verdade sem ser pela webcam.
maria eduarda voltou a procurar um amor pela internet, continua usando roupas florais esvoaçantes e recebendo sua pensão mensal.
jorge voltou a grande rede e continua ludibriando meninas até hoje com a mesma história. e todas continuam caindo. jorge pereira é um homem esperto e estranho.
jorge não tem muitos amigos, é um tanto sozinho. sua ex-esposa não deixou nem que ele ficasse com os peixes beta que eles mantinham como animais de estimação porque ela acreditava que ele não seria capaz de alimentá-los com a frequência exata. jorge não tinha com quem conversar, ninguém lhe dá a atenção que necessita, então passa muito tempo lendo e se informando, os livros lhe fazem companhia. jorge é muito culto, entende de literatura, filosofia e arte; usa desse conhecimento para impressionar menininhas pela internet.
o passa-tempo predileto de jorge é criar falsos usuários em sites de relacionamento e, assim, seduzir meninas que gostam de coisas culturais e que são inteligentes. mas ele nunca dá a entender que ele as está seduzindo, as envolve de tal forma que quando percebem elas já estão perdidamente apaixonadas por jorge e mostram-no seus sexos pela webcam. este é o ápice de seu divertimento, já que não consegue nem ao menos se masturbar enquanto vislumbra as imagens. jorge tem vivido assim por longos anos.
um dia, contudo, jorge começou a seduzir a menina mais interessante e inteligente que já conversara em sua longa jornada pela rede. a menina se chamava maria eduarda.
[maria eduarda, apelido duda, quarenta-e-nove anos, pensionista, com rugas e marcas de expressão. maria eduarda tem vários cabelos brancos que tenta esconder com tinta vermelha barata para cabelos e fica por um tempo considerável com as raízes aparentes, o que confere a seu cabelo um aspecto tricolor entre vermelho, preto e branco. ela é solitária como jorge, passa seu tempo livre em sites de relacionamentos e de encontros para pessoas maduras. maria eduarda também é aficionada por leitura e música boa. usa óculos e umas roupas florais esvoaçantes. decidiu usar o apelido de duda porque achou que lhe conferia um ar jovial e procura sempre estar antenada nas tendências das pessoas novas.]
jorge e maria eduarda se conheceram por meio de um site de relacionamento que tratava principalmente de música. começaram a conversar por longas horas. maria eduarda tinha certeza que jorge não era o que dizia ser, jorge sabia que maria eduarda não tinha vinte-e-três anos. conversavam sobre música, literatura e muitas coisas do aspecto mundano dos jovens, a diferença era a profundidade da conversa, os dois tinham opiniões muito bem formuladas e interiorizadas que pessoas com menos de quarenta não são capazes de demonstrar com tanta naturalidade.
jorge tentava usar os mesmos meios que usava com as outras meninas para ludibriar maria eduarda: falar que não tem fotos no computador que ele está, não disponibilizar webcam, usar algumas propriedades gráficas típicas de adolescente; mas maria eduarda já conhecia cada uma daquelas técnicas. maria eduarda tentava enrolar jorge como ela fazia com todas as outras pessoas, mas jorge também conhecia aquelas técnicas como a palma de sua mão. um desconfiava ensandecidamente do outro, mas se recusavam a demonstrar com medo de serem desmascarados, apesar disso, os dois eram extremamente inteligentes, tinham apreços muito similares e começaram a se interessar um pelo outro.
maria eduarda, que era um tanto mais aventureira que jorge, decidiu se declarar e contar a verdade sobre duda. jorge, vendo que havia conseguido seduzir uma mulher interessantíssima como maria eduarda, decidiu contar toda a verdade para ela, incluindo seu problema de impotência. maria eduarda ficou feliz ao conhecer o verdadeiro jorge, jorge ficou aliviado por ter sido aceito.
marcaram um encontro, foram assistir a um filme de arte, depois a um lounge ouvir jazz e conversar. maria eduarda estava na sua melhor forma, vestia sua melhor roupa floral e estava com um chamativo batom vermelho nos lábios. jorge estava nervoso, usava uma camisa azul claro que denotava o suor em suas axilas e sua barriga tentando fugir das calças, calças pretas e sapatos marrons, assim como as meias.
o encontro foi um sucesso, os dois conversaram muito, apreciaram a música e o filme, mas o relacionamento não foi pra frente. maria eduarda estava disposta a tentar acabar com a impotência de jorge, mas jorge descobriu que não sentia mais afeição por pessoas de verdade sem ser pela webcam.
maria eduarda voltou a procurar um amor pela internet, continua usando roupas florais esvoaçantes e recebendo sua pensão mensal.
jorge voltou a grande rede e continua ludibriando meninas até hoje com a mesma história. e todas continuam caindo. jorge pereira é um homem esperto e estranho.
coisas:
contos
21.4.09
das alterações climáticas
nem me lembro bem como tudo começou, na verdade, eu nem percebi nos primeiros meses, mas não sou normal. eu costumava ser normal, sabe? uma menina como outra qualquer, com os problemas de sempre, notas de provas, meninos, escola, espinhas, pais... era tudo como tudo deveria ser. e nem perceber sozinha eu percebi, uma amiga, uma vez, me disse como era engraçado como o tempo sempre acompanhava meu humor. eu pedi a ela que explicasse, ela disse que quando eu estava feliz, geralmente o céu estava azul, ensolarado, pássaros cantavam, o mundo parecia mais feliz; mas quando eu estava triste, o tempo fechava e ventava e chovia torrencialmente; quando eu estava com raiva, havia vendavais, raios, trovões; quando ficava desanimada o tempo esfriava, o dia nublava e uma leve garôa caia. ela disse que era coincidência, que o tempo afetava meu humor, mas ao longo do tempo percebi que era meu humor que afetava o clima, não o contrário.
nunca tinha falado sobre isso com alguém, sabe, é estranho. tinha medo que me mandassem para laboratórios para estudar essa minha habilidade, me encher de eletrodos, fazer exames, medir a quantidade de neurotransmissores que havia na química do meu cérebro... toda vez que pensava nisso, ficava com medo e o tempo mudava, então eu me forçava a pensar em coisas felizes para que o tempo voltasse a se firmar. me sentia responsável toda vez que chovia demais e inundava lugares, não queria que toda aquela tristeza fosse por causa da minha própria, eu só queria ser normal! tantos poderes que eu poderia ter, controlar o clima... que ironia.
ao rezar, eu perguntava a deus o motivo de ter sido eu, de não ser outro dom, mas nunca consegui resposta alguma. me sentia meio que uma pessoa renegada por deus, ele havia me congratulado com uma maldição e nem ao menos para rir de mim ele dava as caras. me sentia sozinha e incompreendida, eu era só uma menina que nunca tinha feito mal para ninguém deliberadamente, eu não merecia aquilo.
como não havia solução, fui vivendo daquele jeito, mas não me aquietei, pesquisava sempre que podia sobre esse assunto; e não é que um dia eu encontrei mais uma pessoa que tinha o mesmo dom que o meu? era um homem de meia idade, vivia em outro continente e parecia não se importar muito com a nossa capacidade de alterar o clima. ele me disse que se não fosse para ser assim, assim não seria, me disse também que havia encontrado uma mulher que tinha as mesmas características que as nossas, ela vivia no norte do hemisfério norte e que era triste, muito triste. ele me passou seu contato, e comecei a me corresponder com ela. conversamos por alguns meses e ela jamais conseguiu me explicar o motivo de tanta tristeza que ela sentia, mas ela descobriu mais uma pessoa que tinha o mesmo dom, esse homem conhecia mais algumas pessoas com as mesmas características, começamos a nos corresponder todos. no princípio não entendíamos muito bem o que acontecia conosco, mas resolvemos marcar um encontro para todos nos conhecermos pessoalmente e, talvez, descobrir um pouco mais do acontecimento raro que nos acometia.
quando nos encontramos, num país "neutro", aconteceu algo estranho. o clima no mundo inteiro mudou, ficou estranho e irreconhecível, as pessoas normais falaram que o fim do mundo estava próximo. dá para imaginar o que aconteceu no pobre país que resolvemos nos encontrar? houve uma tsunami enorme e acabou com o país, todos ficamos bem, mas procuramos nos afastar uns dos outros com o intuito de parar com aquela catástrofe. depois daquele dia, ao nos correspondermos, descobrimos que somos marionetes de deus, para que o clima no mundo seja harmonioso, que cada um de nós tem características diferentes que são condizentes com o clima em nossa região, uns mais tristes, outros sempre felizes, alguns muito bravos... e, que de geração em geração, pessoas distintas são agraciadas com esse poder sobre o tempo e outras voltam a existência normal, sem poder algum de mudança climática.
eu voltei a ser normal, mas realmente sinto falta de saber com certeza quando vai chover ou fazer frio inesperadamente. está nas mãos de outra pessoa agora. só espero que ela não demore tanto tempo quanto eu demorei para entender o que acontece com ela.
---
para ş. que sem as críticas bem elaboradas e colocadas não teria conseguido. obrigada.
nunca tinha falado sobre isso com alguém, sabe, é estranho. tinha medo que me mandassem para laboratórios para estudar essa minha habilidade, me encher de eletrodos, fazer exames, medir a quantidade de neurotransmissores que havia na química do meu cérebro... toda vez que pensava nisso, ficava com medo e o tempo mudava, então eu me forçava a pensar em coisas felizes para que o tempo voltasse a se firmar. me sentia responsável toda vez que chovia demais e inundava lugares, não queria que toda aquela tristeza fosse por causa da minha própria, eu só queria ser normal! tantos poderes que eu poderia ter, controlar o clima... que ironia.
ao rezar, eu perguntava a deus o motivo de ter sido eu, de não ser outro dom, mas nunca consegui resposta alguma. me sentia meio que uma pessoa renegada por deus, ele havia me congratulado com uma maldição e nem ao menos para rir de mim ele dava as caras. me sentia sozinha e incompreendida, eu era só uma menina que nunca tinha feito mal para ninguém deliberadamente, eu não merecia aquilo.
como não havia solução, fui vivendo daquele jeito, mas não me aquietei, pesquisava sempre que podia sobre esse assunto; e não é que um dia eu encontrei mais uma pessoa que tinha o mesmo dom que o meu? era um homem de meia idade, vivia em outro continente e parecia não se importar muito com a nossa capacidade de alterar o clima. ele me disse que se não fosse para ser assim, assim não seria, me disse também que havia encontrado uma mulher que tinha as mesmas características que as nossas, ela vivia no norte do hemisfério norte e que era triste, muito triste. ele me passou seu contato, e comecei a me corresponder com ela. conversamos por alguns meses e ela jamais conseguiu me explicar o motivo de tanta tristeza que ela sentia, mas ela descobriu mais uma pessoa que tinha o mesmo dom, esse homem conhecia mais algumas pessoas com as mesmas características, começamos a nos corresponder todos. no princípio não entendíamos muito bem o que acontecia conosco, mas resolvemos marcar um encontro para todos nos conhecermos pessoalmente e, talvez, descobrir um pouco mais do acontecimento raro que nos acometia.
quando nos encontramos, num país "neutro", aconteceu algo estranho. o clima no mundo inteiro mudou, ficou estranho e irreconhecível, as pessoas normais falaram que o fim do mundo estava próximo. dá para imaginar o que aconteceu no pobre país que resolvemos nos encontrar? houve uma tsunami enorme e acabou com o país, todos ficamos bem, mas procuramos nos afastar uns dos outros com o intuito de parar com aquela catástrofe. depois daquele dia, ao nos correspondermos, descobrimos que somos marionetes de deus, para que o clima no mundo seja harmonioso, que cada um de nós tem características diferentes que são condizentes com o clima em nossa região, uns mais tristes, outros sempre felizes, alguns muito bravos... e, que de geração em geração, pessoas distintas são agraciadas com esse poder sobre o tempo e outras voltam a existência normal, sem poder algum de mudança climática.
eu voltei a ser normal, mas realmente sinto falta de saber com certeza quando vai chover ou fazer frio inesperadamente. está nas mãos de outra pessoa agora. só espero que ela não demore tanto tempo quanto eu demorei para entender o que acontece com ela.
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para ş. que sem as críticas bem elaboradas e colocadas não teria conseguido. obrigada.
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